Eberhard Fischer – Estaleiro Praia da Luz

Fisher chegou da Alemanha em 1953, em um barco de oceano de 11 metros, construído por ele mesmo. Chegando à Bahia conseguiu seu primeiro trabalho, como carpinteiro nava. Ganhava pouco mais de um salário mínimo e não falava uma palavra de português.

Seis meses depois, mudou-se para o Rio de Janeiro e empregou-se como engenheiro naval no Arsenal da Marinha. Na época, aproveitando um cantinho de um estaleiro que havia na Ilha da Conceição, começou a fazer o que realmente gostava: construir e projetar barcos. Então, mudou-se para a Praia da Luz e começou a construir a escuna Igarassu, com base nas plantas originais do dinamarquês Slaaby Larsen.

O estaleiro Praia da Luz veio da disposição de Raul Luis de Carvalho de dar a Fischer as condições de lá construir sua escuna Igarassu. O estaleiro, então de propriedade de Eberhard Fisher, ficava localizado a uma hora e meia de Niterói – RJ (o único acesso era através do depósito de lixo de São Gonçalo), foi o fabricante, entre outros, dos double-proa Escândalo e Aquamarine, dos veleiros Classe Dourado 26 pés e do Classe Toninha (com sua quilha invertida).

A Classe Dourado, foi desenvolvida usando como base o projeto do veleiro Guanabara, ao qual foi incluído uma quilha e um cockpit estanque. O projeto foi encarregado por João Schmidt a Eberhard Fischer por volta de 1960.

Fischer se fez ainda mais conhecido com sua reforma do veleiro Atrevida, que, com seus 96 pés, é ainda hoje o maior veleiro registrado no Brasil e talvez na América do Sul. Quando o então proprietário, Dirceu Fontoura, resolveu modificar as suas características de barco de regata para iate de passeio, incumbiu Eberhard Fischer de realizar a mudança. Uma das diversas modificações feitas por Fisher foi reduzir seu calado de 5,40 metros para cerca de quatro metros. Com isso, o veleiro ficou mais dócil e perdeu muito pouco do seu excepcional desempenho.

Saiba mais, lendo o texto reeditado por Gustavo “Rato” Pacheco, sobre a matéria escrita por Lopes Setti para o Jornal do Brasil em 01/10/1988, disponível ao final desta página.

NomeModeloAno
VirventClasse Dourado
FlibusClasse Dourado1960
Tio PatinhasClasse Toninha1959
Terra FirmeClasse Toninha
ToninhaClasse Toninha
AquamarineDouble Ender 52’1982
EscândaloDouble Ender 52’1982
IgarassuEscuna 65′1977
Sirius IICatamarã de 12 metros
MantaCatamarã de 13 metros1961
Manta IICatamarã de 44′1988
YagaraçuBaseado em uma escuna dinamarquesa usada por práticos.

Meu pai teve um Toninha, se chamava Tio Patinhas. Acho que foram construídos uns 6 barcos nos anos 60. O estaleiro do Fischer era na Praia da Luz em Niterói. Esses barcos eram de tabuado em cedro, mas não tinham calafate. Eram como barris de vinho. Quando meu pai subia o barco por uma semana para pintar o fundo, quando descia o barco afundava e ficava boiando com agua pelo convés. No dia seguinte meu pai tirava a agua e a madeira ja tinha inchado. Aí o barco não fazia mais agua…

O veleiro Barracuda (BL 40) estava ancorado em poita do Iate Clube Guanabara próximo ao Morro da Viúva na Enseada de Botafogo no Rio de janeiro. Era pintado em cor azul clara e era lindo. Foi paixão à primeira vista. Indo para o trabalho estacionava o carro sobre a calçada próximo ao Morro da Viúva e ficava admirando-o.

Não tinha experiencia anterior na vela, mas comprava todos os livros disponíveis e os estudava com afinco (havia pouca literatura a respeito no Brasil e a maioria era em francês e alguns em inglês adquiridos na Livraria Leonardo da Vinci no Edifício Marquês do Herval no Centro do Rio de Janeiro).

Procuramos seu proprietário (Creio que Global Transportes. Empresa de Transporte Marítimo de propriedade de Capitão de Mar-e -Guerra reformado) que informou que queria vende-lo, enviando-o para pequeno estaleiro em São Gonçalo/ Niterói, supostamente para reformá-lo.

O Barracuda apesar de ter sido construído no Estaleiro Arataca com tudo que havia de melhor em materiais e equipamentos da época (seu dono, Paulo Ferraz era armador e proprietário do Estaleiro Mauá, fundado pelo Barão de Mauá), estava em péssimo estado, com seu motor a gasolina tendo se transformado num monte de ferrugem, estava cheio de água doce e em local que não tinha condições de tirá-lo da água.

Barracuda ou Vagamundo. Foto: Sergio G L Aguiar

Eu e meu concunhado, João Valiante, acertamos sua compra e o rebocamos para o Iate Clube do Rio de Janeiro, onde o colocamos em seco.

Seu estado geral era lamentável. Soubemos que, quando ainda de propriedade de Paulo Ferraz, tinha encalhado na Praia do Arpoador e foi vendido para o representante da Brookes & Gatehouse (B&G) no Rio de Janeiro que o reclassificou para navegação costeira e passou a utilizá-lo principalmente para eventos sociais, especialmente em poita no ICRJ onde era conhecido por Jacques Poita.

Não foi uma recuperação fácil. Demorou mais de 1 ano. Parte da popa estava podre, as tabuas do costado afastadas das cavernas e seus parafusos de fixação inutilizados por eletrolise. A parte inferior da quilha na parte que era em madeira (peroba do campo) estava comprometida por gusano (teredo) e teve que ser substituída. Retiramos o mastro, revisamos todas as ferragens e o estaiamento, substituindo tudo o que não estivesse em perfeitas condições.

Refizemos todo seu interior utilizando parte do seu projeto original, mas melhorando suas acomodações para utilização como em embarcação de lazer em alto mar, com material de salvatagem adequado, incluindo balsa salva vidas.

Substituímos seu antigo motor a gasolina por um novo Volvo Penta diesel de 25 HP, além de todos seus comandos e instrumentos de navegação B&G e instalamos nova bussola na sua roda de leme.

Em sua reforma contei com a colaboração de muitos amigos, especialmente meu cunhado Gerald Bemberg que doou livros e equipamentos, Urbano Pedral Sampaio que trabalhou comigo em vários finais de semana, Alexandre Levi e, através do Alexandre, as sugestões do Construtor Naval Eberhard Fischer (que na época estava construindo o veleiro Escândalo), além de experientes carpinteiro navais espanhóis que trabalhavam no ICRJ.

Placa comemorativa. Foto: Sergio G L Aguiar

A solução encontrada para a estrutura foi simples e muito trabalhosa: retiramos todo o calafeto (havia três camadas superpostas que geravam grande esforço para fora na estrutura e refizemos a fixação do taboado nas cavernas com rebites de cobre (dois por tabua por caverna), recalafetando todo o veleiro.

Para reclassificá-lo para navegação oceânica tivemos de mudar seu nome já que havia outros Barracuda em outros portos do Brasil.

O nome escolhido foi Vagamundo e a nova pintura foi preto com linha d’água branca e uma faixa branca próximo ao convés. As ferragens originais em bronze foram polidas (a manutenção era bastante cara, exigindo um marinheiro em tempo integral, mas o resultado era belíssimo).

Ficou conosco desde aproximadamente 1974 até 1981 quando, infelizmente, tivemos que vende-lo para dois engenheiros alemães que trabalhavam na empresa KWU na Usina Nuclear de Angra dos Reis.

Enquanto esteve conosco foi utilizado intensamente, velejávamos todos os finais de semana no Rio e em Angra dos Reis, onde passávamos prolongadas férias a bordo.

Não participamos de regatas já que à época ele não era mais competitivo, mas lembro de uma regata Rio-Angra para barcos clássicos, onde recebemos uma pequena placa comemorativa.

Bom dia, Max,

Muito prazer em te conhecer na noite de ontem, durante o jantar na casa do Hans!

Veja embaixo uma foto (a esquerda) da construção do segundo catamarã MANTA do Fischer, já mais elaborado.

O primeiro MANTA (foto da direita), o meu, tinha como design os cascos simétricos também no eixo longitudinal. A foto com os dois personagens dentro das cavernas do casco, foi tirada no início de sua construção e estamos eu e o Fischer, que na época contratei como consultor.

Minha última viagem com ele, foi participando de uma REFENO para Fernando de Noronha em 2007, creio, mas, já com o novo dono para quem o vendi.

Depois tive um Bruma 19 na represa, e velejei algumas regatas num velho Lightning de madeira no SPYC – uma vez, chegamos primeiro na primeira boia, mas depois minha tripulação não conseguiu armar o balão … Tem um MANTA aumentado para 55′ em construção em Navegantes-SC. Do Augusto Souza, a quem passei o seu website.

Os dois catamarã MANTA, Fotos: Claus L.Kiep

A escuna Igarassu, sendo construída por Eberhard Fisher no Estaleiro da Praia da Luz em 1977 – Fotos: Mário Pereira Filho na revista Vela e motor de abril de 1977.

Reportagem sobre o veleiro Classe Toninha na Revista Yachting Brasileiro de junho de 1959 – Escrito por: Eberhard Fischer

Design do Veleiro da Classe Toninha de Eberhard Fischer, com sua quilha invertida.

Texto copiado e reeditado por Gustavo Rato Pacheco . Matéria provavelmente escrita por Lopes Setti. Jornal do Brasil. 01/10/1988

Artigo “Com amor e talento” de Mário Pereira Filho na revista Vela e Motor No. 2 de abril de 1977. Todos os direitos reservados. Proibida sua reprodução.


Tenho como sonho um dia poder implementar uma iniciativa para preservar o patrimônio náutico brasileiro… por isso, já pensando em algum dia poder implementá-lo, além do Cadastro de Veleiros Clássicos, decidi pesquisar e escrever artigos sobre diversos assuntos relacionados à vela brasileira, entre eles, os veleiros desenvolvidos no Brasil… é sobre isso que irá encontrar informações no texto abaixo… caso possa colaborar com informações ou registros históricos, entre em contato. O que não podemos deixar acontecer é essa história se perder.

Max Gorissen – Velejador. Escritor.


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