Fireball, um veleiro concebido para a construção amadora

Tenho como sonho um dia poder implementar uma iniciativa para preservar o patrimônio náutico brasileiro… por isso, já pensando em algum dia poder implementá-lo, além do Cadastro de Veleiros Clássicos, decidi pesquisar e escrever artigos sobre diversos assuntos relacionados à vela brasileira, entre eles, os veleiros desenvolvidos no Brasil… é sobre isso que irá encontrar informações no texto abaixo… caso possa colaborar com informações ou registros históricos, entre em contato. O que não podemos deixar acontecer é essa história se perder.

Max Gorissen – Velejador. Escritor.

A classe Fireball teve seu início no Brasil no ano de 1976, através de um entusiasta de apenas 19 anos (na época): Carlos Eduardo Ribeiro Júnior.

Lúcia Regina Novaes escreveu na revista Vela & Motor de fevereiro de 1978: “Quando percebeu que poderia construir um barco, Carlos Eduardo comprou a edição anual da revista Bateau e conheceu o Fireball. O interesse foi tão grande, manifestou-se de uma forma tão marcante, que ele escreveu para a França pedindo informações, só conseguidas na Inglaterra.

Carlos Eduardo entrou em contato com o presidente da Associação Inter-nacional, Frank Berry, que, pouco tempo depois, enviou o preço do plano de construção do barco (160 cruzeiros e mais 200 de taxa do banco). A partir daí, alguns amigos se interessaram, mandaram vir o plano, e Carlos Eduardo se ofereceu para ser o secretário nacional da Classe, embora esta ainda não seja reconhecida pela Confederação Brasileira de Vela e Motor“.1

As origens do Fireball remontam aos veleiros norte-americanos da classe “A-Class scow”, que despertaram o interesse de Peter Milne, um projetista de barcos britânico. Após vários anos de planejamento, Peter construiu o primeiro Fireball — com o patrocínio de seus empregadores, a Norris Brothers — em um celeiro em Sussex, no Reino Unido, durante o inverno de 1961-1962“.2

Márcio e Marcos De Lamare no veleiro Frenesi, participando do I Campeonato Brasileiro de Fireball 1979 – Cabo Frio – RJ. Foto: Ricardo Azoury na revista Vela & Motor No. 31 de outubro de 1979. Todos os direitos reservados. Proibida sua reprodução.

Com os planos adquiridos e a classe brasileira reconhecida pela Fireball International, Carlos Eduardo, na época vivendo em Cabo Frio, construíu o primeiro veleiro Fireball do Brasil, o Manacá, e foi atrás de outros interessados.

Não foi difícil e, no mesmo ano, outros veleiros começaram a ser construídos, como o de Carlos Eduardo Wagner, o Patchouli, também de Cabo Frio. Em São Paulo, outro Fireball, o de Francisco Santos, passava por acabamentos enquanto um outro já tinha as madeira sendo cortadas. Em Santa Catarina, o estaleiro Lineburger construiu mais um e, ainda no sul, o Veleiros do Sul, de Porto Alegre, mostrava interesse em montar uma flotilha, enquanto, no Rio de Janeiro, o diretor de vela do Clube dos Caiçaras, o Sr. Castelo Branco, colocava ao clube à disposição para qualquer integrante da classe.

Com autorização da Associação Internacional de Fireball, Carlos Eduardo montou um pequeno estaleiro e começou a produzir veleiros. Na época, tinha condições de construir e entregar um veleiro pronto ao mês. Focado na construção dos cascos, leme e bolina, Carlos Eduardo fez um acordo para que Paradeda (Marco Aurélio Paradeda) construísse os mastros em série, enquanto as velas seriam produzidas por Pellicano.

Carlos Eduardo Ribeiro Junior em foto na revista Vela & Motor. Todos os direitos reservados.

Em contato com as federações de alguns países da América do Sul, entre eles Argentina, Venezuela e Colômbia, discutiram a possibilidade de realizar um Campeonato Sul-americano da classe no Brasil já no ano de 1980 e, em conversas com Frank Berry, presidente da associação na época, discutiu-se a possibilidade de realizar no Brasil o Campeonato Mundial da classe no ano de 1985.

Sendo o casco do Fireball basicamente “um pranchão de surfe”, este agradou vários velejadores da época por ser um veleiro bastante simples, técnico e que, aliado à fácil construção, oferecia um veleiro econômico e divertido de se velejar.

Contudo, diferente da Europa, onde os veleiros da classe eram (e ainda são) construídos “em grupo”, saindo ainda mais barato por unidade, no Brasil, o mesmo não aconteceu e, justamente por ser um veleiro de “construção amadora”, algo não muito apreciado pelo brasileiro, a classe teve dificuldades de se constituir, adquirir volume e se desenvolver, com, ao todo, umas 12 unidades construídas nos primeiros anos.

A “construção amadora”, da qual a Fireball dependia, promovida e muito utilizada internacionalmente, no Brasil, nunca alcançou volumes e nem destaque. Isso, por um motivo simples; o brasileiro não tem por costume construir seu próprio barco. Ele compra pronto! (com raras excessões! Para saber mais sobre construção amadora, acesse: Madeira Mar Estaleiro Escola e Grupo de Construtores Amadores no Facebook).

De qualquer maneira, o sonho de um jovem e seu árduo trabalho para desenvolver uma nova classe de veleiros no Brasil pode ser considerado um sucesso, afinal, apenas dois ano após o início da idéia, em 1979, todo o trabalho culminou com a realização do I Campeonato Brasileiro de Fireball, nas águas de Cabo Frio, no Rio de Janeiro. Participaram 6 veleiros e o campeonato teve 3 dias de intensas regatas com a vitória dos gêmeos Márcio e Marcos De Lamare, no veleiro Frenesi.

Infelizmente, depois do sucesso do primeiro campeonato, teve início o declínio da classe Fireball no Brasil e, já a partir do ano seguinte, 1980, o avanço de outras classes de veleiros concorrentes, como o 470, 420, Snipe, HC-14 e 16, Lightning, Day-Sailer, Laser, entre outros, construídos em fibra de vidro e “em série”, acabaram por “dar por encerrado o sonho” de uma classe brasileira de Fireball.

I Campeonato Brasileiro de Fireball 1979 – Cabo Frio – RJ. Foto: Ricardo Azoury na revista Vela & Motor No. 31 de outubro de 1979. Todos os direitos reservados. Proibida sua reprodução.

As origens do Fireball remontam aos veleiros norte-americanos da classe “A-Class Scow”, que despertaram o interesse de Peter Milne, um projetista de barcos britânico. Após vários anos de planejamento, Peter construiu o primeiro Fireball — com o patrocínio de seus empregadores, a Norris Brothers — em um celeiro em Sussex, no Reino Unido, durante o inverno de 1961-1962.

O protótipo de pré-produção — hoje conhecido como Fireball “0” e abrigado no Museu Marítimo Nacional do Reino Unido — foi testado com e sem trapézio, mas não (que se saiba) com spinnaker, embora não haja dúvida de que Peter já considerava essa opção desde o início. O design incomum despertou interesse imediato, mas foi o desempenho do Fireball na água que rapidamente chamou a atenção. Navegando sem trapézio, o Fireball apresentava um desempenho brilhante assim que o vento aumentava, sendo claramente mais rápido — em comparação direta — do que os veleiros leves (dinghies) já estabelecidos de porte semelhante.

Embora projetado pensando na construção amadora, os primeiros Fireballs foram construídos profissionalmente por Jack Chippendale e, pouco depois, pela Plycraft. No entanto, cascos construídos por amadores logo começaram a surgir de garagens e salas de estar, permanecendo uma característica da classe por muitas décadas. O crescimento inicial do número de barcos foi impulsionado pelo Reino Unido, seguido rapidamente pela Irlanda e pela França.

Veleiro Fireball No. 1 (esquerda e meio) e, à direita, Laurie Smith no World Champions de 1978. Fotos extraídas da página sobre a história do site Fireball International. Todos os direitos reservados. Proibida sua reprodução.

O uso de trapézio foi permitido a partir de 1965, ano em que o número de velas registradas chegou a 1.000. O primeiro campeonato mundial, realizado no Reino Unido, ocorreu em 1966 — mesmo ano em que foi lançado um protótipo de casco em PRFV (plástico reforçado com fibra de vidro), construído por Jack Chippendale.

Nos anos seguintes, os Fireballs foram produzidos em ritmo acelerado, e a introdução do spinnaker a partir de 1969 impulsionou ainda mais o crescimento da frota.

O número de velas registradas atingiu 5.000 em 1970 e, com o Fireball sendo velejado em todo o mundo, a classe recebeu status internacional naquele mesmo ano. Simultaneamente, reconheceu-se a necessidade de uma administração global da classe, levando à criação da Fireball International. Isso deu novo impulso ao crescimento: em 1973, o Fireball já era velejado em 68 países e, dois anos depois, foi emitido o número de vela 10.000.

O ritmo de crescimento começou a desacelerar a partir do final da década de 1970 por diversos motivos, mas a classe manteve uma solidez e uma base robusta que perduram até hoje. Isso se deve, em parte, ao formato básico do casco, que permaneceu relativamente constante graças a tolerâncias de medição bastante rigorosas. Um barco Fireball construído em 1962 permanece, visualmente, muito semelhante a um construído 50 anos depois. Houve muitas variações no aparelho (mastreação e velas) e no layout do cockpit, e os materiais de construção foram rigorosamente controlados — embora não a ponto de comprometer o futuro da classe.

A construção de cascos em fibra de vidro começou na Austrália no início da década de 1980. Esses barcos tinham um visual espetacular, mas deixavam um pouco a desejar em termos de resistência. Uma mudança nas regras, no início da década de 1990, tornou a construção em fibra de vidro (FRP) mais simples e resistente, levando à criação de novos moldes no Reino Unido, na Austrália e na Suíça. Desde então, os cascos têm sido produzidos com um design bastante consistente, seguindo medidas que — com a vantagem de meio século de experiência — são consideradas ideais. No entanto, a liberdade de escolha quanto ao aparelho permite que velejadores de diferentes portes físicos compitam entre si com sucesso.

Graças ao entusiasmo de seus muitos admiradores, a classe Fireball chegou ao seu 50º aniversário em excelente forma, com mais de 15.000 unidades construídas. Para o velejador de clube, ela continua sendo a mais popular entre as classes tradicionais de trapézio simples e balão (spinnaker) simétrico, atraindo, ao mesmo tempo, a atenção de grandes nomes do mundo da vela de barcos leves (dinghies). Acima de tudo, a classe Fireball tem uma reputação consolidada de ser um ambiente acolhedor, onde os recém-chegados são bem-vindos e velejadores de todos os níveis são incentivados a ir para a água e participar.3

Veleiro da Classe Fireball. Copyright Peter Milne. Todos os direitos reservados. Proibida sua reprodução.
  • Classe: Fireball International
  • Armação/ Tipo: Sloop fracionado/ dinghy
  • Projetista: Peter Milne – Inglaterra.
  • Desenho: Multi-chine – projeto de 1962 com mais de 15.150 veleiros construídos até hoje (2026).
  • Material do casco: Originalmente projetados para construção amadora em madeira, como é o caso dos veleiros construídos no Brasil nos anos 70 (fundo em pinho e deck em cedro; fita de fibra de vidro e resina nas junções), os Fireballs modernos são construídos com materiais compostos de alta tecnologia, como a fibra de vidro, kevlar ou sanduíche de espuma.
  • Categoria: Águas abrigadas
  • Motorização: Não possui.
  • Tripulantes: 2
  • Comprimento: 16 pés ou 4,93 m
  • Linha d’água: 4,04 m
  • Boca: 1,37 m
  • Calado: 1,22 m com a bolina abaixada
  • Área vélica:
    • Mestra: 28,21 m²
    • Genoa: 11,43 m²
    • Balão: 43,58 m² (originalmente sem balão, este foi incorporado ao design original a partir de 1969).
  • Mastro e velas: Para os primeiros Fireball brasileiros, o Paradeda construía o mastro em série e o Pellicano as velas.
  • Deslocamento: Casco com 76,4 kg e total de 100 Kg.
  • Trapézio: Sim
  • Observação: Carlos Eduardo Ribeiro Júnior foi quem se interessou pela Classe, ao folhear um número da revista Bateau, pediu informações à França, que só conseguiu através da classe na Inglaterra, e construiu o primeiro barco brasileiro, o Manacá. O Fireball, conhecido como uma “prancha de surfe a vela”, plana facilmente com ventos moderados (a partir de cerca de 10 a 15 nós) e proporciona grandes velocidades na popa, com seu spinnaker convencional.

Site da Fireball International Association: www.fireball-international.com

International Fireball – 1986 Study Plans. Copyright Peter Milne. Todos os direitos reservados. Proibida sua reprodução.
Nome do veleiroAnoPrimeiro proprietárioOutros nomesLocal
Manacá1977Carlos Eduardo Ribeiro JúniorCabo Frio – RJ
Patchouli1977Carlos Eduardo WagnerCabo Frio – RJ
Francisco SantosSão Paulo – SP
São Paulo – SP
LineburguerSanta Catarina
FrenesiMárcio e Marcos De LamareCabo Frio – RJ
PistolaPorto Alegre – RS
Kracaatoa
Veleiro Fireball de nome Kracaatoa em um anúncio “à venda” em Porto Alegre – RS no ano de 2023. Foto: Porto Alegre Boats & Charters.

Matéria na revista Vela & Motor Ano I – No. 11 de fevereiro de 1978. Todos os direitos reservados. Proibida sua reprodução.

Matéria na revista Vela & Motor Ano III – No. 31 de outubro de 1979. Todos os direitos reservados. Proibida sua reprodução.

Matéria na revista WoodenBoat – Small Boats de 2011. Todos os direitos reservados. Proibida sua reprodução.

  • Francisco Luiz Silva do SPYC (com edições da Revista Vela & Motor)

Espero que tenha gostado pois, cada embarcação clássica tem uma história única para contar e que pode servir de referência e consulta para historiadores, pessoas e instituições interessadas, antigos e novos proprietários e o público em geral, promovendo assim a rica e as intrigantes histórias associadas a esses clássicos e preservando e aumentando assim seu significado cultural para as gerações futuras.

Bons ventos!

Max Gorissen

Velejador. Escritor. Artesão Naval.


  1. Texto extraído da matéria na revista Vela & Motor Ano I – No. 11 de fevereiro de 1978. Todos os direitos reservados. Proibida sua reprodução. ↩︎
  2. Texto extraído da página sobre a história do site Fireball International: https://www.fireball-international.com/the-boat/history/# ↩︎
  3. Texto extraído da página sobre a história do site Fireball International: https://www.fireball-international.com/the-boat/history/# ↩︎

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