Existem diversos ângulos (os veleiros, o velejador, os clubes, a represa, a sociedade, a evolução do design, a economia, etc) para se analisar o desenvolvimento das classes de veleiros utilizados na Represa de Guarapiranga1 ao longo dos anos, contudo, deixo claro, não vou abordar todos eles pois o artigo acabaria virando um livro… assim, esclareço, meu foco será o de analisar especificamente os “veleiros” usados pelos velejadores paulistas, em especial, o Sharpie 12m² e o Iole Olímpico, desde o pós guerra, até os dias de hoje, discutindo o que aconteceu com a vela e o que poderia ser feito para que estas e outras classes mantenham ou recuperem seu esplendor. Mas antes…
Um pouco de história
No ano de 1945, na represa de Guarapiranga em São Paulo, os velejadores disputavam as regatas em basicamente seis classes de veleiros: Iole Olímpico, Sharpie 12 m², 15 metros, 20 metros, Seagull e a Classe H, esta última, uma classe composta pelos vários “caixões” para se velejar inventados e construídos artesanalmente pelos próprios velejadores na época.
Destas seis classes, nos dias de hoje, apenas duas “sobrevivem” e continuam a participar regularmente de regatas na Guarapiranga: a Sharpie 12 m² e a Iole Olímpico.
As outras, ou desapareceram completamente, ou possuem alguns poucos veleiros espalhados e “abandonados por aí” e em diversos estados de conservação, contudo, na Guarapiranga, não participam mais das regatas.

Só para registar um determinado momento da história destas duas classes, em 1948, mais precisamente no sábado e domingo, 26 e 27 de junho de 1948, após um intervalo sem regatas oficiais (apesar de terem acontecido de maneira informal) devido à Segunda Guerra Mundial, com o fim do conflito bélico, a FPVM – Federação Paulista de Vela e Motor (atual FEVESP), retomou a realização das regatas inter-clubes na represa de Guarapiranga, com duas regatas das classes Sharpie 12m² e Iole Olímpico.
Com largada em frente do clube SPYC, apresentaram-se na raia cerca de 30 veleiros no conjunto das duas classes. O vento leve do quadrante norte, fez com que cada disputa terminasse já após a primeira volta (regata triangular), cabendo aos representantes do YCSA, a absoluta vitória destas duas provas.

O resultado da primeira regata realizada no dia 26 foi o seguinte: Klaus Susenmihl, primeiro colocado na Sharpie 12m² e, Reimar Koch, o vencedor na Iole Olímpico. A segunda regata, realizada no dia 27, foi vencida por Edgar A.Bromberg na classe Sharpie 12m² e, novamente, Reimar Koch na classe Iole Olímpico.
Animados, no dia 30 de junho de 1948, uma quarta-feira, agora disputando o Troféu Ernesto de Fiore, três classes de veleiros participaram, sendo estas: a 20 metros (Classe V), a Sharpie 12m² e a Iole Olímpico.
Muito concorrida, a competição contou com aproximadamente 45 veleiros e teve início as 11 horas da manhã, acompanhada de um vento forte do quadrante sul. Coube ao YCSA novamente a vitória, depois de uma regata de mais de duas horas, sagrando-se vencedor: Joaquim Roderbourg na classe Iole Olímpico, Harold von Sydow na classe Sharpie 12m² e Wolfgang Richter na classe 20 metros.2
As novas “antigas” classes de veleiros
Essas seis classes (Iole Olímpico, Sharpie 12m², 15 metros, 20 metros, Seagull e Classe H) se mantiveram “dominantes” na Guarapiranga até meados dos anos 60, junto com outras classes como: 5 metros RI e Super Delphin 28. Além destes, registros mostram que veleiros das classes Carioca (K), Guanabara e Hagen-Sharpie, entre outros, em algum momento, navegaram também nas águas da Guarapiranga.
Contudo, nessa transição dos anos 60 para os anos 70, os veleiros das classes Sharpie 12m² (de 1931) e Iole Olímpico (de 1936), foram aos poucos sendo substituídos por novas classes “mais modernas” de veleiros, principalmente, por causa da introdução, em meados dos anos 60, de um novo material construtivo para os cascos em substituição da madeira; a fibra-de-vidro.
As “novas” classes, apesar de muitas serem também de projetos antigos, foram: Star (de 1911), Snipe (de 1931), Lightning (de 1938), Optimist (de 1948), Finn (de 1949), Flying Dutchman (de 1951), Day-Sailer (de 1958), 420 (de 1959), 470 (de 1963), Soling (de 1965), HC-14 (de 1967), Laser/ILCA (de 1969), HC-16 (de 1971), Micro-Tonner Mariner 19 (de 1975), J/24 (de 1977), Dingue (de 1978), Marreco 16 (de 1980) e, mais tarde, os “modernos” 29er e 49er/49er FX (de 2000), Skipper 21 (de 2002), HPE 25 (de 2003), TomCat Race (de 2005), Emi (de 2006) e os Flash 135, 165, 170 e 205 (de 2006), entre outros.
Além destes veleiros, é preciso destacar o grande desenvolvimento da indústria náutica brasileira nos 80 e 90, que também contribuiu para com a introdução de diversos novos modelos de veleiros, muitos, novamente, utilizados e ainda existentes nas águas da Guarapiranga.
Faço aqui uma seleção, apenas porque este é o tamanho ideal para se velejar na represa, de veleiros de até 25 pés, todos em fibra-de-vidro e fabricados no Brasil: Alpha 20.2, Alpha 220, Angra 21, Atol 23, Barracuda 23, Boto 16, Brasília, 23, BRM 18, Bruma 19, Bruma 22, Cat 119, Clam 19, Classic 16, Costeiro 19, Cruiser 18, Cruiser 23, Delta 17, Delta 21, Ensenada 20, Fast 230, Flash 16, Flash 195 XR, Flash 205, Gaivota 23, Main 22, Magnum 422, Magnum 595, Mapau 19, Micro Racer 19, Mod 23, Multishine 23, O’Day 23, Paturi 16, Paturi 23, Poli 19, Ranger 22, Rival 21, Rocket 23, Sailing 21, Sailor 19, Supercat 17, Tahiti 16, Tchê 17, Vaqueiro 16, Vaqueiro 18, Vaqueiro 22, Vega 23, Velamar 18, Velamar 22 e Voyage 23 (se esqueci de algum, favor incluir nos comentários).
Sobrevida das classes Sharpie 12m² e Iole Olímpico
Sharpie 12m²
O Sharpie 12m² é um monotipo de madeira one-design projetado para duas pessoas, com uma grande área velica, aparelhado com uma buja e uma mestra armada em carangueja, e com um casco de boca estreita, com uma quina de transição (chine) “bem fechada”, um fundo suavemente curvo e uma borda baixa, ainda hoje, pode ser considerado um veleiro de “alta-performance”. Trabalhosos de se velejar em ventos fortes, são ao mesmo tempo “pura emoção” para velejadores experientes. Com seu casco estreito oferecendo pouca estabilidade quando adernado, precisa de uma tripulação “safa”, técnica e pesada (pelo menos o proeiro), para que o veleiro não capote.
Dando um salto no tempo e indo direto para o ano de 2014, ainda houve uma tentativa de recuperação da classe com a reforma de alguns veleiros, todos de madeira, liderada pelo Sr. Antônio Luis Galvão do Rio Apa, junto com a participação ativa de alguns entusiastas e proprietários destes veleiros, que culminou com a formação da AVCS – Associação dos Veleiros da Classe Sharpie (que não existe mais) e a realização de 3 campeonatos Brasileiros seguidos, sendo eles:
- 50° Campeonato Brasileiro de Sharpie 2014, realizado junto com a Regata de 80 Anos da AVCS, em Niterói – RJ, com a participação de 4 veleiros: Gabiru, Nautilus IV, Boa Vida e Coragem.
- 51° Campeonato Brasileiros de Sharpie 2015, realizado em Nova Lima – MG, com a participação de 3 veleirose: Gabiru, Tô a Toa e Boa Vida.
- 52° Campeonato Brasileiro de Sharpie 2016, realizado na Represa de Guarapiranga – SP, com a participação de apenas 2 veleiros (concorrendo com veleiros da classe Snipe): Nautilus IV e Feitiço.
Infelizmente, o Sr. Rio Apa, grande incentivador da classe, viria a falecer nesse mesmo ano de 2016, fazendo com que, tanto o desenvolvimento quanto a promoção da classe Sharpie “morressem” junto com ele.
Avançando para os dias de hoje, dos 12 veleiros da Classe Sharpie 12m² que ainda existem “espalhados” pelo Brasil (de um total de pelo menos 172 veleiros que identifiquei no Brasil), os “sobreviventes” são: Gabiru (BL 13 e BRA 654), Feitiço (BL 140), Squalus (BRA 133), Una Lenda (BRA ?), Nautilus IV (BL 10), Moleque (BL ?), Coragem (A 516), Boa Vida (BL 413), Tô a Toa (BRA 454), Albatroz (BL ?), Nelson Patinho (BRA 207) e um outro Sharpie sem nome e que está sendo restaurado no YCP. Destes, apenas dois veleiros participam com frequência de regatas “mistas” (várias classes) na Represa de Guarapiranga, em São Paulo: o Gabiru e o Feitiço.

Iole Olímpico
O Iole Olímpico é um monotipo de madeira one-design projetado para uma pessoa que, por sua característica de ser um veleiro que veleja muito bem em todas as condições de vento e que permite ser facilmente velejado por uma variada gama de velejadores, do jovem ao mais velho e do leve ao mais pesado.
Apesar de somente ter conseguido identificar ao todo 32 veleiros no Brasil, o Iole Olímpico tem duas vantagens em relação ao Sharpie; 1) possui uma Associação de Classe Forte e com velejadores proprietários participativos e; 2) como a classe e os veleiros se concentram nos clubes da Represa de Guarapiranga, as regatas e o interesse continua ativo, com os seguintes veleiros participando ativamente de regatas: Malandrinho (BL 21), Tramp (BL 25), Albatross (BL 20), Seeteufell (BL 17), Woody (BL 8), Maudi (BL 6) e Lussin II (BL 16).
Com relação a campeonatos Brasileiros da Classe Iole Olímpico, parece que nunca foram realizados (apesar de que identifiquei a menção de um campeonato) pois, com praticamente todos os veleiros fazendo parte de “Flotilhas” da Guarapiranga, o principal campeonato da classe, sempre foi o Campeonato Paulista da Classe Olímpico, que ocorre todos os anos, ininterruptamente, desde 1940.

Infelizmente, nenhum “novo” veleiro destas classes, Sharpie 12m² e Iole Olímpico, aliás, de nenhum veleiro de madeira com design clássico, foi construído nos últimos 40 anos… os que ainda existem, dependem exclusivamente do cuidado de seus proprietários para continuar podendo velejar.
Então, a pergunta que muitos se fazem é: Como estas duas classes ainda perduram?
Seria a resposta apenas “a paixão de seus proprietários”?
Permita-me agora desviar um pouco o foco das classes Sharpie e Iole para discorrer sobre as classes de veleiros em geral.
As novas “modernas” classes de veleiros
Com a estagnação das Associações de Classe, os custos de importação e a falta de fabricação “local” de novos veleiros para as diversas classes, o que era de se esperar, é que as “modernas” classes, como a 49er (importado), o HPE 25 (de 2003, construído pela Zonda Boats no município de Indaiatuba-SP) e o Emi (construído pela Holos no Rio de Janeiro), por exemplo, deveriam estar em pleno crescimento, com várias unidades sendo adicionadas e compondo os quadros de veleiros dos diversos clubes da Guarapiranga e, ao mesmo tempo, com a realização de frequentes regatas exclusivas destas classes. Contudo, o oposto é verdadeiro, com poucas unidades destas classes nos clubes da represa de Guarapiranga, o que não faz sentido, já que, a meu ver, para os jovens velejadores, a 49er/49er FX deveria ser hoje “a classe de maior sucesso do Brasil”, dado o alto-desempenho dos veleiros e o histórico de vitórias nos campeonatos mundiais, nos Jogos Pan-Americanos (ouro em Santiago 2023) e nas Olimpíadas (ouro no Rio 2016 e de Tóquio 2020) de Martine Grael e Kahena Kunze, ambas, orgulho e referência da vela brasileira.

A falta destes veleiros fica mais evidente em eventos como a Regata de Abertura do SPYC (156 veleiros em 2026), a Taça Clube de Campo de São Paulo (149 veleiros em 2026) e a Taça dos Lagos do YCSA (102 veleiros em 2026), todos eventos abertos para todas as classes em uma única regata nas raias da Guarapiranga. São regatas gostosas, de percurso e onde os velejadores se encontram para, além de competir, para se divertir através da vela… Dê uma olhada nas súmulas e, em todas, você verá que praticamente metade dos participantes são de veleiros Optimist (muitos das escolinhas de vela dos clubes) e das classes mais antigas. Das classes “modernas”, dá para contar os veleiros nos dedos de uma das mãos… sim, assim como o número de veleiros “clássicos” participantes.
Ou seja, o que predomina na represa de Guarapiranga são os antigos veleiros importados ou fabricados entre os anos 80 e, no máximo 2000, demonstrando de que, tanto a quantidade quanto a variedade de veleiros na represa não crescem, ao contrário, à medida que os veleiros vão ficando velhos, à medida que precisam de mais manutenção e a medida que o interesse por eles diminuí, a quantidade destes veleiros também está diminuindo… isso, junto com a diminuição de filiação de membros nos clubes.
Sempre acreditei que a escolha e a propriedade de um veleiro era uma combinação daquilo que “está ao alcance da pessoa adquirir” e que ela “aspirava possuir enquanto crescia” (leia meu artigo Nova geração de velejadores sonha com veleiros de sua juventude). Seguindo este raciocínio, na década de 1970, talvez um Lightning, um Laser ou um Snipe, seriam o sonho de um velejador. Na década de 80, além do Laser, para quem viveu as propagandas dos cigarros Hollywood, um HC-14 ou HC-16 chamariam sua atenção. Nos anos 90, seu veleiro dos sonhos provavelmente ainda seria um Laser ou um Supercat 17, um Ranger 22 ou um Micro-Tonner 19 e, mais recente, pensando em veleiros até 25 pés, além do 49er, talvez, um HPE 25… só que isso não está acontecendo.
Fico imaginando se, talvez, a vela se “perdeu” quando, em 2019, a America’s Cup estabeleceu os veleiros AC 75, com suas quilhas em asa (T-foils), como nos flaps de um avião, como o modelo one-design para a AC 2021 e, em 2022, a Federação Internacional de Vela (atual World Sailing), definiu as “novas” classes olímpicas e de equipamentos para 2024: IQFoil (Windsurfe), Fórmula Kite (Kitesurf), ILCA 6 (antiga Laser Radial) e ILCA 7 (antiga Laser), 49er/49erFX, Nacra 17 e 470 … Para entender “esta minha divagação” e tirar suas próprias conclusões, vale lembrar as classes de veleiros e de pranchas usadas nas olimpíadas de 2020: Laser, 49er, Star, Tornado, Soling, Finn, 470, Europa e Mistral (Windsurf) e, os belíssimos e ágeis veleiros da classe 12 Metros usados na America’s Cup antes de 2021 … tome um minuto para refletir … e não se culpe se concordar comigo pois, fique sabendo, muitos dos proprietários de veleiros com quem tenho conversado concordam com essa minha “divagação”.
Sem rodeio
O que falta para o crescimento da vela brasileira?
Porque a quantidade e a variedade de veleiros pequenos (até 25 pés e não considerando os de oceano pois estou me referindo a represa) não cresce?
Porque, na represa de Guarapiranga, berço da vela Paulista, não vemos o número de veleiros aumentar?
São perguntas de difícil resposta… afinal, hoje, as condições são favoráveis à “propriedade” de um veleiro, com muitos veleiros disponíveis (os mesmos veleiros que estavam presente, que definiram e são o sonho da juventude), com preços acessíveis e em volume e variedade. Também estão a disposição em uma infinidade de estados de conservação, alguns requerem muita, outros pouca manutenção e, na maioria das vezes, possuem um excelente custo-benefício.
Você pode comprar um bom Snipe usado, um veleiro ideal para a família, por menos do que o preço de um Sharpie 12m² ou um Iole Olímpico, e com uma melhor qualidade de construção. Muito mais veleiro pelo seu dinheiro. Além disso, se não quiser um usado, pode comprar um Snipe novo, “zero”, construído pelo famoso Lemão, reconhecido como um dos melhores veleiros Snipe do mundo!
Apenas para descontrair, faço uma pausa, e peço que leve em consideração que alguns veleiros podem vir a custar mais caro para reformar e manter, do que para comprar… existe até um “causo” que diz; “Não deixe ninguém te convencer a não gastar R$ 50.000,00 por um barco… pode ter certeza, de que esses R$ 100.000,00, serão os melhores R$ 150.000,00 que você já gastou na vida…” …, mas não se preocupe, isso só se aplica para lanchas! 🙂 … Leia meu outro artigo: A doença do “este barco dá para restaurar fácil e barato”
Para incentivar o desenvolvimento do mercado náutico, o governo até lançou, em 2011, a Portaria SECEX 160, para facilitar a importação de veleiros novos e usados ao Brasil… esta é uma medida direcionada ao desenvolvimento do “Turismo Náutico”, ou seja, foi concebida para fomentar o desenvolvimento das empresas desse setor (Pessoa Jurídica), motivo pelo qual se deu isenção de impostos para as embarcações “novas”. A sensação é que as embarcações “usadas” foram incluídas de repente para beneficiar alguns que tinham interesse nisso e, por isso, não vou entrar nessa discussão. O importante é que antes não podia importar veleiro usado e agora pode! Ou seja, os Clubes de Vela ou as Associações de Classe, podem “legalmente”, importar veleiros novos e usados, de qualquer tamanho. A pergunta fica: Por que não o fazem?
Existe também a questão de que, dizem, o Brasileiro, não “tem a cultura” e nem “o interesse” por coisas antigas, pelos veleiros clássicos, como é o caso do Sharpie 12m² ou do Iole Olímpico.
Outro “mito”, diz que, em clube de vela, não se deve aceitar lanchas, não pela embarcação em si, mas pelo “lancheiro”, que possui outra percepção do que é a náutica e não compartilha de sua tradição… “mitos” á parte, não vou entrar nesta discussão!
Assim, a questão não é que os atuais velejadores não gostem ou não possuem interesse nestes veleiros. Ao contrário; Eles gostam! Os acham maravilhosos! Até sonham em ter um algum dia!
Como proprietário do Gabirú, um Sharpie 12m² de 1956, posso afirmar que todas as vezes que monto o veleiro, várias pessoas param para apreciar suas linhas e pedem informações sobre o modelo, o ano, os materiais, como veleja, … o preço… O problema, tenho percebido, não é “gosto” ou “preço”… pelo que consegui entender, o problema é que estes velejadores estão ocupados. Estão no auge de suas carreiras, conciliando empregos, hipotecas, precisam levar os filhos à escola e participar de diversas atividades extracurriculares. Podem ter o fim de semana para ir ao clube, mas, muitas vezes, não para participar de uma regata de dois dias, que o isola da sua família. Além de tudo isto, um veleiro clássico de madeira ou mesmo um de fibra de vidro, requer certos cuidados para que não deteriore, que eles não têm como atender.

E quando algo quebra? Eles se acostumaram a não precisar buscar ajuda de alguém mais experiente, ou em um manual, óbvio, se conseguirem encontrar um… ao contrário, para estes, tudo hoje é pesquisado e encontrado no YouTube. Vivemos uma geração que se acostumou ao “isolamento”, um isolamento que se estende a tudo que as pessoas antes faziam em comunidade ou em grupo, função principal dos clubes de vela. Para estas pessoas, a comunidade agora é digital em primeiro lugar. Assistir a um vídeo de alguém velejando, muitas vezes, é suficiente pois o tempo é escasso e eles buscam conselhos instantâneos. Se os clubes de vela estão perdendo membros e a frota de veleiros não está se renovando, não é porque o entusiasmo desapareceu. É porque as expectativas das pessoas mudaram.
Com isso, os clubes da represa de Guarapiranga, como muitos outros clubes no Brasil e no mundo, estão passando por um processo de adaptação às mudanças de expectativas da sociedade. A idéia de “lazer” das pessoas em geral, incluindo o velejador, mudou nos últimos anos, ganhando um “status de necessidade quase biológica”, com grande ênfase no combate à exaustão e na busca pela saúde mental … o que, se formos analizar, é amplamente atendido pela atividade da vela e do lazer nos clubes da represa, um “oásis de natureza e paz dentro de uma cidade de pedra”. Contudo, ao mesmo tempo, existe uma mudança de percepção na qual as pessoas deixaram de atender uma necessidade através da “posse”, para atender a mesma necessidade através da “demanda pontual”. Basicamente, não querem mais possuir algo e ter de manter esse algo. Querem, ao contrário, usar ou aproveitar de algo e logo, simplesmente, abdicar desse algo. Isso fica claro quando pensamos que a sociedade substituiu a necessidade e o prazer da “posse” de um carro, por exemplo, por um serviço de transporte com motorista sob demanda, conceito, aliás, que também se extende para a hospedagem, a vivenda, a alimentação, a diversão, o lazer e o bem estar… ou seja, a maneira como as pessoas utilizam esse “algo” mudou. Nessa nova conjuntura, até a “velha guarda”, que velejava e era apaixonada pelos veleiros, está migrando, por diversos motivos, para outras opções de lazer nas quais a conveniência, o acesso e, principalmente, o custo, não demandem e não pesem na sua vida profissional, social e familiar. Alem disso, no caso da represa, esta passa por outro problema que vem se agravando há anos; a poluição, meses sem água para velejar, e “a invasão de comunidades” no seu entorno, sem a perspectiva de um planejamento, uma melhoria da infraestrutura ou de sua ordenação. Assim, mesmo a sociedade preferindo atividades de lazer que estejam alinhadas com valores ambientais e sociais, a região e o entorno da represa, acabam por se contrapor a essa percepção.
Ou seja, devemos reconhecer de que o cenário mudou, a não ser que seja um veleiro de oceano, nem todos querem regatas ou passeios de vários dias. Ninguém quer gastar tempo fazendo a manutenção ou os reparos necessários nos veleiros. Podem até assistir a vários vídeos sobre isso, mas botar a “mão na massa” que é bom, ninguém quer… e poucos querem, ou não podem no momento, assumir o custo fixo de possuir um veleiro. Cada vez mais, as pessoas optam por:
- Uma velejada ou uma regata de no máximo “meio-dia” e somente no sábado ou no domingo. De preferência, no veleiro de alguém. Regata com dois dias seguidos; esquece!
- Encontros, de preferência para o almoço, organizados pelas classes ou clubes na qual somente precisam “aparecer” e que, de alguma maneira, se encaixe na sua agenda ou vida familiar.
Ou seja, os velejadores procuram e escolhem eventos mais adequados para suas famílias: com almoços e encontros de famílias, velejadas curtas e com a inclusão de outras classes. Também não querem manter veleiros que precisam de constante atenção e onde não encontram mão de obra especializada para assumir o “tempo” que eles precisariam destinar para eles mesmos manterem os veleiros em condições de velejar.
Ao mesmo tempo, existem muitas pessoas que estão na “fase certa da vida” para se tornarem proprietárias de veleiros, aliás, por muitos anos. Eles podem comprar os veleiros, buscam experiências para combater à exaustão e a busca pela saúde mental e, para isso, procuram por um esporte que lhes dê prazer, alinhado com valores ambientais e sociais.
Se oferecermos uma integração com a natureza, eventos flexíveis, ambientes familiares, suporte técnico online e presencial, garantia de manutenção e peças de reparo e, acolhermos veleiros modernos ao lado de ícones clássicos com regatas mistas, estas pessoas não se associarão apenas por um ano… eles ficarão, trarão suas famílias e possuirão uma sucessão de veleiros…. quais veleiros? Espero que um clássico, contudo, a definição de “clássico” evolui a cada geração e nosso papel como entusiastas não é preservar o passado em detrimento do futuro; é garantir que haja um futuro e que esse futuro inclua as novas gerações, independente das embarcações que escolham (a vela, é claro!).
Novamente, como enunciado no início deste artigo, existem diversos ângulos (os veleiros, o velejador, os clubes, a represa, a sociedade, a evolução do design, a economia, etc) para se analisar o desenvolvimento das classes de veleiros utilizados na Represa de Guarapiranga ao longo dos anos, contudo, meu foco é o de analisar especificamente os “veleiros” usados pelos velejadores paulistas, em especial, o Sharpie 12m² e o Iole Olímpico e, por isso, avanço mantendo esse enfoque com a seguinte pergunta:
Será que para uma classe de veleiro evoluir e se manter ativa, não seria necessário uma, ou todas, estas 3 iniciativas que listo a seguir? (comente se concorda, discorda ou se achar que existem outras)
- Uma Associação de Classe forte, com membros apaixonados e comprometidos;
- Um Clube de Vela que esteja disposto a ajudar a Classe a crescer e a se desenvolver;
- Um estaleiro, ou pessoa(s) apaixonada(s), dedicada(s) a manter e construir novos veleiros da Classe.
Antes de discorrer e elaborar um pouco sobre cada uma, cabe mais uma vez enfatizar de que esta é uma reflexão sobre vela, veleiros e velejadores, embora ela possa ser aplicada a outros tipos de embarcação ou de atividade esportiva.
1. Uma Associação de Classe forte, com membros apaixonados e comprometidos
Não importa o modelo ou design do veleiro, se existem dois iguais ou mesmo parecidos, existe a possibilidade de se formar uma Associação de Classe ativa e interessada em congregar velejadores e suas famílias, promover regatas, promover encontros, palestras, viagens e, até mesmo, encontrar meios de estimular a recuperação ou a produção/fabricação de novos veleiros para a classe.
Uma classe com membros unidos em torno de uma mesma paixão, não permitem que o motivo dessa paixão se extinga, se deteriore ou desapareça. Pelo contrário, investem tempo e dinheiro para que ela cresça, se desenvolva e evolua. Motivo pelo qual uma Associação de classe é fundamental para a sobrevivência dos diversos tipos e modelos de veleiros.
Um conceito fundamental, e que deve ser uma premissa da associação, é o de proteger os veleiros da classe, não só os de seus associados. É inevitável que, ao longo dos anos, alguns veleiros se percam por causa de um acidente, por causa de um descuido ou por causa do abandono, contudo, é função da associação não permitir com que estes se deteriorem.
Entendo que, muitas vezes, a recuperação destes veleiros está acima das posses, tanto dos proprietários atuais quanto da própria associação, contudo, o veleiro não pode ser perdido e, para isso, pelo menos, deveriam ser armazenados e preservados em algum local com condições, aguardando a restauração pelo próprio proprietário ou por um futuro “novo” proprietário. Neste caso, os Clubes de Vela são lugares perfeitos para isso. Não só porque possuem o espaço físico para guardar um veleiro, mas também, por existir o interesse do clube em associar um “novo proprietário” como seu membro. Para o clube, manter um veleiro em suas imediação sendo “cuidado” por uma associação, mesmo que “de graça”, aguardando um futuro proprietário, não é um custo, é um investimento em um novo sócio e na manutenção e crescimento do próprio clube (esta ideia vou repetir no 2 abaixo).
2. Um clube de vela que esteja disposto a ajudar a classe a crescer e a se desenvolver
A alma de um Clube de Vela está na sua história, em seus membros, nas suas regras e no seu estilo, todos protegidos por uma sólida estrutura operacional, extremamente funcional para o desenvolvimento do iatismo.
Um Clube de Vela é um lugar de onde se sai para navegar ou, onde um relaxa para conversar sobre regatas, cruzeiros e coisas agradáveis, como os veleiros que se conheceu ou nos quais se velejou, os portos, ancoradouros e clubes visitados, a excelente “cuisine” e os drinks degustados a bordo durante um maravilhoso entardecer, ou ainda, para contar histórias e “causos” de velejadas.
A troca de “prazeres” como esses entre membros de um Clube de Vela é uma tradição, uma cultura, que alimenta a atmosfera e consolida a ideia do prazer que é ser membro desse clube… dessa família!
Basicamente, um Clube de Vela é como uma associação dedicada à prática de esportes náuticos, particularmente o iatismo. Ele pode promover, conduzir e incentivar essa prática esportiva por meio da promoção de regatas de veleiros e outros eventos relacionados, bem como de uma escola de vela, que forma atletas aptos a competir no esporte a vela, em especial, nas modalidades olímpicas.
Como mencionado no 1 acima, um conceito fundamental necessário e que deve ser uma premissa de uma associação, é o de proteger os veleiros da classe, principalmente, mas não só os de seus associados. É inevitável que, ao longo dos anos, alguns veleiros se percam por causa de um acidente, por causa de um descuido ou por causa do abandono, contudo, é função da associação não permitir com que estes se deteriorem.
Entendo que, muitas vezes, a recuperação destes veleiros está acima das posses, tanto dos proprietários atuais quanto da própria associação, contudo, o veleiro não pode ser perdido e, para isso, pelo menos, deveriam ser armazenados e preservados em algum local com condições, aguardando a restauração pelo próprio proprietário ou por um futuro “novo” proprietário. Neste caso, os Clubes de Vela são lugares perfeitos para isso. Não só porque possuem o espaço físico para guardar um veleiro, mas também, por existir o interesse do clube em associar um “novo proprietário” como seu membro. Para o clube, manter um veleiro em suas imediação sendo “cuidado” por uma associação, mesmo que “de graça”, aguardando um futuro proprietário, não é um custo, é um investimento em um novo sócio e na manutenção e crescimento do próprio clube (esta ideia está descrita também no 1 acima).
Sendo assim, um Clube de Vela que, além de atender às necessidades de seus sócios iatistas, ajuda seus membros com a estrutura necessária para guardar, manter e até construir novos veleiros da classe, em contrapartida, garante seu futuro, ao se beneficiar com a captação e a associação de novos membros da classe e de sua família.
3. Um estaleiro, ou pessoa(s) apaixonada(s), dedicada(s) a manter e construir novos veleiros para a classe
Para que uma classe de veleiros “sobreviva”, principalmente os de madeira, é necessário pessoas, ou artesãos, que saibam reformar ou restaurar esses veleiros. Saibam ler os planos, entendam de marcenaria naval e saibam trabalhar a madeira com as ferramentas apropriadas, de preferência, as manuais, como o fizeram os artesãos navais quando o veleiro foi construído.
Contudo, para que uma classe de veleiros “evolua e se desenvolva“, é necessário construir, artesanalmente ou em linha, “novos” veleiros com base nos planos originais, promovendo assim, a manutenção ou o ressurgimento da classe do veleiro e dando continuidade ao legado e à visão dos velejadores brasileiros que, na época, trouxeram a classe ao Brasil.
Sem isto, a classe não sobrevive.
Bem, após todas estas considerações, acredito que, juntando estas três iniciativas, qualquer classe, inclusive a Sharpie 12m² e a Iole Olímpico, se conseguirem desenvolver os especialistas necessários para a restauração de antigos veleiros ou estaleiros que construam novos e, ao mesmo tempo, se conseguirem um clube que centralize os veleiros da classe ajudando a promover uma Associação de Classe com membros ativos e preocupada em proteger as embarcações existentes, independente de seu estado, têm todas as condições, não só de se manterem ativas, mas de prosperar, crescer e de se desenvolver.
Pense nisso…
Espero que este texto sirva de reflexão, não só para os velejadores, mas para todos os Clubes de Vela e Associações de Classe, para que promovam a recuperação e o desenvolvimento das classes de veleiros da Represa de Guarapiranga, em especial, mas não limitado, as classes Sharpie 12m² e Iole Olímpico.
Bons ventos!
Max Gorissen
Velejador. Escritor.
- Inicialmente conhecida por Represa de Santo Amaro, o termo correto e mais utilizado para denominar a represa é “Represa de Guarapiranga”. Usa-se a preposição “de”, e não “da”, porque o nome próprio do manancial é “Guarapiranga”. Este nome, de origem tupi-guarani, significa “ave vermelha”, e não um substantivo comum que exija o uso do artigo feminino. ↩︎
- Usei para consulta e referência, um artigo sobre a Vela Paulista na Revista Yachting Brasileiro de 1948. Infelizmente, não sei a edição e não possuo maiores informações pois tenho apenas um recorte parcial. De qualquer maneira, os créditos e direitos autorais do conteúdo são da referida revista. Todos os direitos reservados. Proibida sua reprodução. ↩︎
Descubra mais sobre Max Gorissen
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.