Veleiro East Coast 12 Meter RC

Antes de discorrer sobre este veleiro rádio controlado (RC), um modelo raro no Brasil, gostaria de abordar sua origem e elucidar sua interessante história.

O projeto original que deu origem ao veleiro da classe East Coast 12 Meter (EC-12) rádio-controlado foi o projeto nº 2770 de Charles Morgan. Apelidado de “Eagle”, o projeto foi elaborado por volta de 1962/63 e transformado em um modelo em escala de 9/10″ = 1′ com o objetivo de realizar testes hidrodinâmicos.

O “Eagle” nunca foi considerado para ser construído em tamanho real e nem como um potencial defensor Norte Americano na regata Américas Cup de 1964. Seu objetivo, era simplesmente o de estudar maneiras de reduzir a problemática “onda de um quarto”, produzida por projetos de cascos com quilha integral (full keel).

Assim, da maneira como foi originalmente concebido, o formato do casco do East Coast 12 Meter é semelhante ao do veleiro que participou da Américas Cup no ano de 1964, de nome “Constellation”, apresentando uma proa razoavelmente cheia, com apenas uma pequena redução na parte dianteira. Uma proa curta em forma de “colher” é mostrada nos desenhos originais, mas, no modelo, esta proa foi estendida para dar forma ao design um pouco mais elegante que conhecemos hoje, provavelmente, pelo Sr.Buddy Black, que usou o modelo hidrodinâmico como fôrma para fazer os primeiros moldes de fibra de vidro do EC12.

Dos cascos que saíram desse primeiro molde, o casco número 25, mais tarde chamado de “Flame”, foi eventualmente usado para produzir outros moldes “secundários”.1

A produção de cascos para regatas de nautimodelismo (ou veleiros de rádio controle), começou na Flórida e é relatada em publicações especializadas no assunto já em 1968. Através destas, se sabe, que no final da década de 60, John Reynolds, de Orlando na Flórida, começou a produção de cascos em parceria com Buddy Black. Um conjunto de moldes migrou para a região de Washington DC, em 1970, justamente quando a “American Model Yacht Association” (AMYA) estava sendo formada.

Alguns cascos foram produzidos por Charles Black, irmão de Buddy, e então, o molde foi entregue a Rod Carr, de Chevy Chase, Maryland, que começou a produção de cascos “nus”, operando o estaleiro Carr’s Boatyard.

Os primeiros esforços para organizar a classe para regatas aceitaram diversos modelos, todos de tamanho aproximadamente igual. Cascos como o Hartman Olympia e o Jacobson’s Regatta One-Design, foram reunidos sob o nome de East Coast 12 Meter (EC-12M). O nome foi escolhido para diferenciar este grupo de veleiros RC, de aproximadamente 1,5 metros de comprimento, de outro veleiro RC da classe 12 metros, que estava sendo produzido em Newport, Califórnia, e era chamado de West Coast 12 Meter na época. O barco californiano, maior, com 1,8 metros de comprimento, foi posteriormente renomeado para Newport 12.

Portanto, o EC-12 é um modelo de veleiro rádio controlado, com design restrito (one-design) e cascos de fibra de vidro, fabricados a partir de moldes quase idênticos. O resultado é uma classe de veleiros RC com potencial de velocidade semelhantes. O objetivo, como em qualquer boa classe one-design, é que os ajustes, as táticas e a habilidade de condução do veleiro pelo seu “comandante”, determinem o resultado.

Além disso, a classe busca que o veleiro mais novo seja competitivo com os modelos antigos, e que veleiros de todos os fabricantes sejam igualmente competitivos. Nos Estados Unidos, a Associação EC-12, com um regulamento claro e cascos, decks e velas estritamente controlados pela classe, permitiram que isso acontecesse.

O veleiro radio controlado EC-12 tem aproximadamente 1,5 metro de comprimento total, 10,4 kg de deslocamento e um mastro de 1,8 metro de altura. O casco, é uma réplica em escala de um veleiro da Classe Américas Cup 12 metros, como mencionado anteriormente, copiado do modelo originário do projeto de nº 2770, de Charles Morgan de 1962, concebido para testes hidrodinâmicos. Ele navega como um veleiro de oceano com quilha integral (full keel), em vez de como um dinghy ágil. O ajuste do EC-12 é semelhante ao de um veleiro maior, embora, durante a regata, as regras da classe limitem o “trim” somente do leme e das escotas da retranca da vela mestra e da vela de proa, este ;ultimo, chamado de “twitcher” (retranca da buja).

O formato de deslocamento pesado com quilha integral do EC-12 difere da maioria das outras classes de veleiros RC monocasco, que possuem um design de casco muito mais leve, utilizando quilhas longas e profundas com bulbos para lastro. Os designs mais leves são mais rápidos na maioria das condições.

Um dia de maio de 2010, dei uma passada por um brechó náutico que havia na avenida em frente ao morro Sorocotuba no Guarujá (era na época do Guilherme) e ví um casco King-Harken de Optimist bem desgastado a venda… não tive dúvidas, comprei o veleiro no ato para meu filho, na época, com 8 anos.

Perambulando pelo brechó “procurando por tesouros”, vi a “popa” de um casco apoiado de lado na parte de baixo de uma estante … quando puxei o casco, não contive a felicidade. Era o casco (não tinha nada além do casco) de um antigo veleiro da Classe 12M da Américas Cup. Acho que nem perguntei quanto custava… só pedi para me dizer quanto devia pelos dois cascos, o do Optimist e o do modelo 12M.

Como estava com minha Pickup S-10, coloquei o casco do Optimist na caçamba, que encaixou certinho, e dentro do Optimist, o 12M, trazendo tudo para São Paulo.

Foto: Max Gorissen

O Optimist, foi direto para as mãos do saudoso Tom, da Tom&Cat, para instalar o que faltava, ou seja, tudo! (carreta, leme, bolina, flutuadores, mastro, retranca, vela, roldanas, cabos, etc).

O 12M, levei para casa e, após um tempo pesquisando quem poderia fazer um jogo de velas e mastreação, achei o Sr. Luiz de Castro, que fora o sócio fundador em 1978 da APN – Associação Paulistana de Nautimodelismo e que, anos depois, teve seu nome mudado para APVRC – Associação Paulista de Vela RC. Luiz de Castro, além de conhecido velejador (nacional e internacional) de RC, era reconhecido pelas suas excelentes habilidades manuais na confecção de mastros, velas, birutas e roldanas.

Tudo que ele fez ficou perfeito! (veja a foto ao lado – o bicho é grande!).

Ele só não mexeu no casco que, na época, estava pintado de vinho (obras mortas – costado), branco (obras vivas – abaixo da linha d’água), beije (deck) e vinho novamente, na tampa ovalada do deck (projetado para selar o compartimento interno contra a entrada de água) e que, depois de uma limpeza e polimento, de longe, ficou bastante aceitável.

O mastro e as retrancas, foram construídos usando tubos cilíndricos de carbono de diferentes diâmetros (provavelmente, provenientes de varas de pesca). Sim… você não leu errado… duas retrancas… uma para a mestra e outra para a buja pois, ao contrário de veleiros de tamanho real, os veleiros RC podem ter essas retrancas em ambas as velas para garantir seu controle preciso via os dispositivos “servos” (pequenos motores eletromecânicos que convertem sinais elétricos em movimentos mecânicos precisos de posição e velocidade).

O trabalho realizado pelo Sr. Luiz de Castro na armação do meu EC-12, permite simular todas as opções de regulagem e ajustes também disponíveis em veleiros de tamanho real; desde o posicionamento das escotas da mestra e da buja (que saem de pontos independentes do deck e que permitem caçar ou soltar as velas pelos servos), incluindo todos os brandais (stays), o backs-stay, o cunningham e o burro (vang). É tudo ajustável, permitindo a regulagem perfeita da esteira, da valuma e da testa de ambas as velas, de acordo com cada condição de vento. Além disso, todos os punhos das velas são reforçados. Trabalho artesanal e extremamente profissional!

Usei o veleiro em algumas ocasiões no YCSA, na represa de Guarapiranga e, depois de um tempo, o levei para minha casa no Guarujá, onde, devido ao seu tamanho, não ter um lago ou águas paradas por perto e a dificuldade para transportar, acabou virando peça de decoração. Quando vendi a casa do Guarujá, trouxe o veleiro para São Paulo, onde ficou abandonado no corredor que dá para os quartos.

Velejando no pontão do YCSA – Guarapiranga – SP. Foto: Max Gorissen

Ainda usei o veleiro em mais uma oportunidade quando, em 2018, como Vice-Presidente Santos da ABVC, promovi uma “Clínica de Trimagem de Velas” na Marina Supmar. Nesta, os palestrantes, Miller Lazur e Paulo Fernandes Soalheiro Neto, abordaram o tema de maneira prática e elucidativa, usando, para demonstração dos ajustes das velas, meus veleiros RC EC-12 e Lightning APS.

Ao final da palestra, colocamos o EC-12 na água para que os participantes pudessem “velejar”, fazendo na hora os ajustes nas velas conforme mudava o vento.

Várias fotos do evento da ABVC, “Clínica de Trimagem de Velas”, na Marina Supmar – Guarujá – SP. Fotos: Max Gorissen

Uma dúvida que sempre tive foi quem fabricou meu casco… apesar dele ter as mesmas características (acesso longo e ovalado no deck ao interior do casco e o “difusor de água” avante do mastro), design e medidas do casco “Dumas Heritage 12 boats” (fabricado entre os anos 70 e 90), pelo acabamento “rústico” da fibra-de-vidro do interior e a falta de uma etiqueta do fabricante, mais parece um trabalho amador que foi feito sobre um molde ou com base em um casco do Dumas Heritage.

De qualquer maneira, o casco está muito bem construído e, enquanto não tenho “fatos” que comprovem o contrário, assumo que este é um Clássico casco Dumas Heritage 12 (EC-12).

Propaganda de época do Dumas EC-12 em alguma revista não identificada.

Embora um Dumas EC-12 clássico, com o equipamento original de latão da Fisher, seja um item de colecionador muito procurado, qualquer casco Dumas que não foi registrado na AMYA Class EC-12M, não atende às especificações modernas da Classe 12 Metros da Costa Leste (EC-12) e não pode competir em eventos nacionais ou regionais oficiais. Contudo, desde que tenha sido construído antes de 1 de dezembro de 2004, ainda pode ser registrado na frota EC-12 apesar dos cascos Dumas Heritage EC-12 não atenderem aos padrões de casco da classe e também não serem considerados cascos competitivos atualmente. No entanto, continua sendo uma embarcação fantástica e que chama a atenção quando está a velejar.

  • Comprimento total: ~58 polegadas (~1,5 m)
  • Altura do mastro: ~72 polegadas (~1,8 m)
  • Deslocamento: ~23 lbs (~10,4 kg)
  • Características: Apresenta uma quilha mais estreita, curvada e curta do que outros EC-12 que possuem um leme quadrado grande, tornando a versão Dumas uma excelente embarcação para navegar em condições de vento fraco.

Observação: Após as fotos da reforma, apresento informações da classe EC-12 e as especificações atuais aprovadas pela classe.

Esquema do veleiro Heritage 12 Meter na capa do manual que vinha com Kit do veleiro. Foto: Darticus.

Um dia, vi o casco do EC-12 abandonado fazia tempo no corredor dos quartos da minha casa e decidi que faria uma reforma completa nele para que voltasse a velejar. Do nada. Simples assim.

As velas e a mastreação, estavam enroladas em plástico bolha e apoiadas em cima do deck. O casco, no seu berço de madeira. Peguei tudo e levei para minha bancada de trabalho na lavanderia, onde comecei a desmontar até deixar o casco “pelado”… então comecei a lixar.

Na bancada, pronto para iniciar os trabalhos. Foto: Max Gorissen
Peças retiradas do veleiro. Dá para ver o leme (centro), a biruta (à direita), suportes dos bancos de baterias (à esquerda embaixo), a placa contendo os “servos” e “braço” para movimentação de velas e do leme (topo esquerdo), além de diversas outras peças e parafusos. Foto: Max Gorissen
Já tendo começado a lixar com lixa 80, fiz o registro da altura da linha d’água em três pontos (popa, centro e proa) em relação ao deck para usar as mesmas medidas depois. Meu objetivo é lixar toda a tinta até chegar na fibra, fazer o “reparo” das imperfeições do casco e só depois de lixar até que todas as imperfeições sejam removidas e o casco fique liso e perfeito. Então será pintar com primer e pintar várias demãos de tinta PU. Foto: Max Gorissen
Aos poucos, vou lixando as grossas camadas de tinta e de primer, chegando na fibra-de-vidro. Dá para ver claramente pela foto, que o casco originalmente não era muito liso e precisou de “preenchimento”. Para chegar nesse ponto, precisou muito “braço” e se gerou também muito pó… a foto foi tirada com o veleiro no berço, depois de que aspirei a bancada e limpei o piso. Ainda tem muita lixa pela frente! Foto: Max Gorissen
Lixando o fundo do casco… haja pó!

Nas fotos da esquerda (encima e embaixo), o casco após um árduo trabalho lixando e vários reparos feitos com massa epóxi. Nas fotos da direita (em cima e embaixo), o casco já com uma mão de primer branco à base de epóxi … próximo passo… lixar o epóxi antes de aplicar a primeira demão de tinta!

Após lixar o primer e realizar alguns reparos com massa plástica, apliquei a tinta tinta PU azul , a mesma com a qual havia pintado o Gaia 1 (produzida pela Coninco especialmente para mim, chamamos de Azul Gaia), meu FyC 40 1987, no casco, na tampa do deck (acima) e no leme (abaixo). O deck e a parte interna da tampa do deck (embaixo), foram pintados com tinta PU branca, chamada Oyster White.

Começou o trabalho de instalação de peças, acabamentos e detalhes… exemplo: tive de construir algumas peças e optei pela madeira, sempre com o uso de ferramentas manuais, como essas “travas” da tampa do deck (foto da direita): a “trava” da proa (frente), com movimento deslizante e “posição de travamento”, enquanto a da popa, é fixa e possui uma passagem para a escota da mestra, feita com a parte de alumínio de um rebite.

E, de repente, ficou pronto!

O EC-12 é um modelo de veleiro rádio controlado, com design restrito (one-design) e cascos de fibra de vidro, fabricado a partir de moldes quase idênticos. O resultado é uma classe de veleiros RC com potencial de velocidade semelhantes. O objetivo, como em qualquer boa classe one-design, é que os ajustes, as táticas e a habilidade de condução do veleiro pelo seu “comandante”, determinem o resultado.

Além disso, a classe busca que o veleiro mais novo seja competitivo com os modelos antigos, e que veleiros de todos os fabricantes sejam igualmente competitivos. Nos Estados Unidos, a Associação EC-12, com um regulamento claro e cascos, decks e velas estritamente controlados pela classe, permitiram que isso acontecesse.

O veleiro tem aproximadamente 1,5 metro de comprimento total, 10,4 kg de deslocamento e um mastro de 1,8 metro de altura. O casco, é uma réplica em escala de um veleiro da Classe Américas Cup 12 metros, copiado do modelo originário do projeto de nº 2770, de Charles Morgan de 1962, concebido para testes hidrodinâmicos. Ele navega como um veleiro de oceano com quilha integral (full keel), em vez de como um dinghy ágil. O ajuste do EC-12 é semelhante ao de um veleiro maior, embora, durante a regata, as regras da classe limitem o “trim” somente do leme e das escotas da retranca da vela mestra e da vela de proa, este ;ultimo, chamado de “twitcher” (retranca da buja).

Manuais são “públicos” e podem ser baixados. Copyright: American Model Yacht Association e East Coast 12 Meter (EC-12M)

Para muitos, o modelismo náutico é o hobby ideal.

Com os devidos cuidados, os barcos duram para sempre. Um iniciante pode velejar um Radio Controle com total confiança, pois é seguro e fácil de velejar, apenas manejando o leme e as velas através do controle remoto.

No entanto, a simplicidade esconde uma complexidade de habilidades que podem levar uma vida inteira para dominar. Você pode ser jovem ou idoso, iniciante ou veterano, mulher ou homem, não importa, o modelismo náutico tem algo para todos.

Acima de tudo, o modelismo náutico é diversão… Pura e saudável diversão!

É um passatempo tranquilo, fotogênico e não poluente. Você pode até cair na água por descuido, mas nunca será jogado para fora do veleiro!

Espero que tenha gostado!

Bons ventos!

Max Gorissen

Tenho como sonho um dia poder implementar uma iniciativa para preservar o patrimônio náutico brasileiro… por isso, já pensando em algum dia poder implementá-lo, além do Cadastro de Veleiros Clássicos, decidi pesquisar e escrever artigos sobre diversos assuntos relacionados à vela brasileira, entre eles, os veleiros desenvolvidos no Brasil… é sobre isso que irá encontrar informações no texto abaixo… caso possa colaborar com informações ou registros históricos, entre em contato. O que não podemos deixar acontecer é essa história se perder.

Max Gorissen – Velejador. Escritor.

  1. Pesquisa realizada a partir de artigo EC12 EARLY YEARS de Rod Carr – Link: http://www.ec12.org/About/History.htm ↩︎

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