Construindo um veleiro Heavyweight Sharpie 12 m² de madeira seguindo o método tradicional: com ferramentas manuais.

Como velejador, escritor, restaurador e “historiador” da vela brasileira, quando realizo uma pesquisa para responder a uma determinada pergunta, muitas vezes, as respostas levantam novas questões.

Foi o que aconteceu comigo ao escrever e documentar a história dos Heavyweight Sharpie 12 m² brasileiros (leia: Sharpie 12 m² – A história desses veleiros no Brasil) enquanto restaurava o veleiro Gabirú, um Sharpie 12 m² de madeira construído pelo estaleiro Flório Zotarelli em 1956.

Mesmo após meses de pesquisa para o livro e trabalhando duro na reforma do veleiro, tinha um aspecto da reforma que me instigava e queria poder ter explorado mais a fundo: como exatamente esses barcos eram construídos nos anos 30, 40 e 50?

Relatos escritos, fotografias e alguns veleiros sobreviventes, contaram a maior parte da história dos veleiros construídos, contudo, essas fontes, não conseguiram responder a várias perguntas, partindo da primeira: “Como” foram construídos? … pergunta que suscitava novas questões; qual processo foi usado para realizar uma tarefa ou construir partes ou o todo destes veleiros? Que ferramentas foram usadas? Quantas pessoas e quanto tempo levava para construir um veleiro? …

Ferramentas manuais que pretendo usar para construir o Heavyweight Sharpie 12 m². Fotos: Max Gorissen

Assim, perguntas sem respostas foram se acumulando e me intrigando cada vez mais … a tal ponto em que decidi recorrer ao que os historiógrafos chamam de “arqueologia experimental” … basicamente, o processo começa com uma pergunta: “Não seria interessante construir um Heavyweight Sharpie 12 m² para entender na prática como foram construídos?

Bem, como pode imaginar, é com essa pergunta que tem início este projeto … contudo, deixo claro de que a pergunta somente foi considerada dada minha paixão pelo veleiro Sharpie 12m², pelo apreço da beleza de seu design atemporal e pelo seu desempenho. Além disso, ver essa classe desaparecer no Brasil, tem me aborrecido … então, para quem me conhece, sabe que quando algo me incomoda, não sou só de reclamar, tenho de agir … e foi assim que surgiu e se consolidou a ideia de construir um “novo” veleiro da Classe Heavyweight Sharpie 12 m².

Uma vez decidido, me senti livre para ponderar sobre outras questões que abrangem o “como foram construídos”, levando em conta as premissas do projeto original; de que fossem “fáceis e rápidos de construir e acessíveis (econômicos) para todos”.

É importante destacar esses requisitos, pois estes formam as bases que garantiram o sucesso deste modelo de veleiros desde os anos 30, tanto na construção “profissional”, por renomados estaleiros, quanto na construção “amadora”, ou seja, pelos próprios proprietários dos veleiros de maneira artesanal… e que me levaram a formular “novas” perguntas:

  • Foram construídos sobre moldes pré-fabricados ou simplesmente sobre as “cavernas” definidas nos planos? (o que faz com que o custo seja inversamente proporcional ao volume produzido)
  • Foram construídos com a quilha para baixo ou com a quilha para cima? (dois processos totalmente diferentes, tanto na sua complexidade, quanto no processo de construção)
  • Quais variações nos planos foram “admitidas” pela Associação da Classe ou pelos designers na época e introduzidas na construção? (exemplo: preciso verificar a informação, mas existe um relato de que o estaleiro alemão Abeking & Rasmussen, que construiu mais de 100 veleiros só entre os anos 1931 e 1935, em vez de construir o costado do veleiro com duas tábuas unidas por um “mata-junta” rebitado com pregos de cobre, usava somente uma tábua mais larga no lugar, o que reduz peso e problemas de infiltração … e que gera outra pergunta; como fica o peso mínimo do casco estabelecido pela classe?)
  • Com que ferramentas manuais foram construídos?
  • Entre outras perguntas, que serão feitas e respondidas durante a construção.
Planos do Sharpie 12m² – Copyright Karl Kröger, Hans Kröger e Walter Brauer (Yacht und Bootswerft Gebr. Kröger)

Bem, agora que sabe a que me proponho, vou definir algumas restrições que vou seguir (a não ser que encontre opções historicamente comprovadas e usadas na época) e documentar nos próximos meses:

A primeira é bastante óbvia; vou usar os planos aprovados pela classe internacional para o Brasil no ano 1932;

Também pretendo somente usar ferramentas manuais para trabalhar a madeira;

Os materiais serão limitados aos que existiam e estavam a disposição dos construtores da época, como, por exemplo; parafusos, pregos e arruelas de cobre (no processo de fixação), alcatrão de pinho, terebintina e verniz (para tratar a madeira), latão ou cobre (para as peças da armação), Celeron (para mordedores e roldanas) e as madeiras aprovadas para o Brasil em substituição das europeias:  o fundo e o convés em cedro, as bordas em peroba-do-campo, a mastreação em pinho (também spruce ou freijó), com arremetes também em spruce, pinho ou freijó.

Agora, antes de iniciar a construção, preciso resolver algumas dúvidas construtivas, decidir onde vou construir o veleiro e fazer o “lofting” dos planos em escala real.

Posando com o recém reformado e, pela primeira vez montado, Sharpie Gabirú – BRA 654. Foto: Maxy Gorissen

Também tenho de decidir se vou filmar ou simplesmente fazer um registro escrito e fotográfico (deixe sua opinião de como devo proceder nos comentários ou me mande um e-mail).

Em breve, divulgo mais informações (NEWS) ou o registro da construção (BLOG) enquanto ela vai sendo executada.

Caso possua fotos, registros, peças, vídeos, planos, relatos, saiba de algum veleiro abandonado ou tenha quaisquer outras informações que possam ajudar no projeto, entre em contato comigo.

Se ficou tão intrigado quanto eu, me acompanhe nesta aventura de pesquisa, análise e comprovação prática de “como se construíram os Heavyweight Sharpie 12 m²”.

Bons ventos!

Max Gorissen

Tenho como sonho um dia poder implementar uma iniciativa para preservar o patrimônio náutico brasileiro… por isso, já pensando em algum dia poder implementá-lo, além do Cadastro de Veleiros Clássicos, decidi pesquisar e escrever artigos sobre diversos assuntos relacionados à vela brasileira, entre eles, os veleiros desenvolvidos no Brasil… é sobre isso que irá encontrar informações no texto abaixo… caso possa colaborar com informações ou registros históricos, entre em contato. O que não podemos deixar acontecer é essa história se perder.

Max Gorissen – Velejador. Escritor.


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