Existem poucos lugares onde se pode vivenciar a paz como em seu próprio veleiro

Escrevo este texto na quinta-feira, 29 de outubro de 2026. Chove lá fora, e a percepção exacerbada pelas notícias é de que o país está passando por um verdadeiro caos … por isso, hoje não vou escrever sobre os veleiros, como faço regularmente, e sim, sobre o sentimento de se estar isolado, longe de tudo e de todos, em um deles.

Sim, eu sei; ficar no veleiro quando está chovendo não é a coisa mais agradável do mundo; tudo fica úmido e quente, contudo, se você for pensar, existem poucos lugares onde se pode vivenciar a paz e a tranquilidade como em um veleiro, principalmente, quando chove.

Aqui, em frente ao meu computador, imagino que estou ancorado em um local agradável e isolado, acabei de fechar a gaiuta de entrada, desliguei o celular e me acomodei no meu lugar favorito …, não importa o que estou fazendo; posso estar comendo uma deliciosa refeição …, posso estar tirando uma “soneca”, o que é perfeito para um “reset” mental rápido e para aliviar a fadiga ou, posso estar descontraidamente preparando uma bebida com um petisco para relaxar …, tanto faz, o que importa é que, neste contexto, de repente, o resto do mundo parece ficar maravilhosamente distante.

Quem já viveu essa situação sabe que, nesse momento, se sente uma “ausência” …, mas não no sentido de carência ou de perda e sim, no sentido de não necessitar de nada …, de se sentir completo, em harmonia consigo mesmo e com seu entorno …, em um estado de plenitude pessoal, onde não se depende de outras pessoas ou de fatores externos para estar bem, tranquilo e feliz.

De barulho, apenas a chuva golpeando o deck, o som da água contra o casco, o característico rangido do veleiro, a brisa do mar passando pela mastreação e, esporadicamente, o ronco do motor de alguma embarcação que passa “ao largo”.

Não são todas as pessoas que conseguem passar sozinhas por esta experiência sensorial, na qual, existe algo profundamente gratificante em sentir-se totalmente à vontade no seu próprio veleiro, muitas vezes, por horas lendo um bom livro, com uma xícara de café, estirado confortavelmente em um beliche ou, com uma carta náutica, planejando e sonhando sobre o seu próximo destino, tudo isso, é claro, aliado à ausência de qualquer compromisso com horários ou locais … sim, às vezes, é bom ter uma boa companhia, como sua esposa, seu filho ou um bom amigo; outras vezes, o melhor é não ter ninguém por perto e, meramente, viver da paz que só o isolamento que um veleiro ancorado em um local remoto pode trazer.

Continua a chover lá fora, contudo, depois desta reflexão, lembro do ditado popular; “depois da tempestade vem a bonança” …, e me animo, pois lembro de que os momentos de crise são passageiros e logo darão lugar à paz, à calmaria e à superação …, quem sabe, quando parar de chover, a bonança vem representada por um arco-íris no horizonte.

Neste momento de incertezas pelo qual estamos passando, esta sensação de plenitude, de paz e esperança, é o que desejo a você no dia de hoje.

Bons ventos!

Max Gorissen

Velejador. Escritor. Artesão Naval.


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