Rapel: uma opção para subir sozinho no mastro do veleiro

Para quem veleja, seja em regata, cruzeiro ou apenas por diversão, existe sempre a necessidade, de tempos em tempos, de subir no mastro para realizar uma vistoria ou reparos.

Para quem usa um veleiro tipo dinghy (pequeno), o problema se resolve tombando o barco ou usando uma escada. Contudo, no caso de veleiros grandes, só há duas coisas a fazer: ou tirar e descer o mastro, ou subir nele. Neste caso, todo velejador enfrenta o mesmo problema: decidir quem vai subir, e como.

Se há a ajuda de um tripulante, o problema está parcialmente solucionado: é necessário definir apenas quem vai subir e quem dará apoio na catraca. Esse é sempre um momento de discussão, no qual o capitão deve assumir sua posição e dar a última palavra. Ao decidir, é preciso levar em conta que subir em um mastro, apesar de parecer, não é tão fácil assim. Só acha fácil quem nunca subiu e fica no deck olhando e dando palpite. Além disso, há diversas variáveis a considerar, como o fato de que muita gente tem medo de subir no mastro. Outros não têm condição física de fazê-lo. Outros, ainda, nunca pensariam em subir em um mastro.

Veleiro dinghy da classe 420 deitado para manutenção no mastro e, na foto à direita, veleiro com mastreação fracionada em 7/8, cruzetas alinhadas, runners e check-stays. O mastro é tão fino e flexível que não aguenta o peso de uma pessoa. Neste caso, note na parte de baixo da foto a estrutura em forma de torre com escadas e plataformas que foi usada para realizar a manutenção no mastro sem ser preciso escalá-lo.

Outro ponto a se considerar: existem os mastros nos quais é possível subir, e outros em que não é. E há ainda aqueles que não estão em condição de que alguém suba neles.

Outro detalhe são as condições do momento para subir em um mastro. Quem já fez isso em pleno mar bravo, com vento forte e veleiro balançando, para recolher uma adriça de balão que se soltou, vai entender claramente o que quero dizer com “condições”… O ideal é estar no abrigo de uma marina, sem vento e, principalmente, resguardado das lanchas que passam (parece que de propósito) a alta velocidade fazendo marolas.

É preciso considerar a combinação de tudo isso. Ou seja, subir em um mastro sempre foi para o velejador uma dificuldade. Isso sem falar nas piadas infames sobre ter subido no mastro…

Porém, meu propósito aqui não é divagar sobre tais questões, mas abordar o problema do velejador “solitário” – tanto o que veleja sozinho quanto o que não tem ninguém para subir no mastro por ele – que precisa subir no mastro a qualquer momento por seus próprios meios.

Visto de baixo, é possível observar como é alto o mastro de um veleiro, neste caso, um 40 pés com cruzetas anguladas para trás.

Existem várias maneiras de se subir no mastro sozinho (sem apoio de uma pessoa catracando e caçando a adriça no deck). Elas vão desde subir “no braço”, no estilo escalar coqueiro (usando os pés apoiados no mastro para dar o impulso), até o uso de catracas elétricas manejadas remotamente por controle remoto, passando por pelo uso de cabos em roldanas de dois ou mais moitões, formando um sistema em que há redução de força na proporção de X (número de roldanas de passagem) para 1.

Sem recomendar nenhuma ou entrar no mérito dessas e outras técnicas, gostaria de tratar de uma maneira que encontrei e , no meu caso específico (cada um terá de avaliar com base em suas habilidades, condição física, psicológica, entre outras), acho bastante segura (no meu caso): é o rapel adaptado para subida em mastro.

É importante destacar de que o rapel é considerado uma modalidade esportiva, e classificado como esporte radical, com alto grau de dificuldade e periculosidade. Por isso, antes de decidir realizar o rapel para subir no mastro de seu veleiro, consulte um instrutor especializado ou uma escola de rapel, e faça pelo menos uma aula para entender o risco, os equipamentos e seu uso, a condição física necessária, os movimentos corretos, os procedimentos de segurança e de redundância, entre outros procedimentos para minimizar o risco.

Antes de qualquer escalada, verifique todo o seu equipamento. Caso identifique qualquer quebra, rasgo, folga ou avaria, substitua imediatamente por um novo. NUNCA utilize equipamentos que não estejam em perfeito estado e nas especificações técnicas recomendadas para seu tipo de escalada, sua habilidade, seu tipo físico e condição física.

O mesmo se aplica às adriças. Na maioria dos veleiros, as adriças da mestra ficam expostas às intempéries (sol, chuva, vento, calor, frio etc.) por longos períodos, além, é claro, de sofrerem vários tipos de esforços, tensões e torções, tanto quando estão sem a vela (geralmente ficam batendo no mastro, com o vento) quanto com a vela (além da tensão, continuam batendo dentro do mastro e sofrendo esforços em cada bordo). Muitas adriças estão em constante atrito com roldanas, cruzetas e outras partes do mastro e das velas, podendo sofrer desgastes que podem ser vistos em sua parte externa, geralmente um rasgo, ou em sua parte interna (chamada de alma), que só pode ser verificada por meio do toque com as mãos ou os dedos. NUNCA utilize cabos ou cordas que não estejam em perfeito estado.

No caso de cabos e cordas, é sempre recomendável usar aqueles recomendados para rapel, acima de 12 mm de diâmetro, somente para as escaladas. Isso significa substituir a adriça da mestra por esse cabo ou corda e, após realizada a escalada, recolocá-la seu lugar.

Existe uma diferença e uma confusão de conceitos entre três esportes categorizados como radicais: a escalada, o alpinismo e o rapel. Não vou entrar aqui em detalhes sobre as outras modalidades, mas me limitar a dizer que o rapel é a modalidade que consiste em descer por cordas em paredes naturais ou artificiais. É uma técnica vertical, muito utilizada por montanhistas, e que se tornou um esporte radical independente.

Os equipamentos necessários são praticamente os mesmos que os alpinistas utilizam, porém adaptados para as diferentes necessidades de quem pratica essa modalidade.

No caso de um mastro, antes de descer, precisamos subir – e é aqui que entra o conceito de rapel adaptado para subida em mastro. Para subir no mastro do veleiro com o mínimo esforço, é preciso adaptar alguns equipamentos do rapel.

  • Ascensores/ descensores
  • Mosquetões
  • Fita anel de nylon costurada
  • Cadeirinha para mastro
  • Cinto de segurança (peitoral tipo paraquedista)
  • Cabo (adriça da mestra e mais um)

OBS: Não vou mencionar marcas… você pode utilizar quaisquer marcas de equipamentos desde que dentro das especificações necessárias para o Rapel.

Todos os equipamentos utilizados na escalada do mastro, faltando apenas os cabos e as luvas.

Para facilitar a compreensão de todo o processo, vou mostrar o passo a passo por meio de fotografias, descrevendo cada momento. Espero com isto poder ajudar a esclarecer todo o processo!

Após ter vestido o cinto de segurança de peitoral (amarelo) e a cadeirinha (que só é visível por parte da cinta branca, na porção inferior da foto, pois estou sentado nela), coloco o primeiro mosquetão através dos 4 anéis de aço inox: dois da cadeirinha e dois do cinto de segurança.

No mosquetão, instalo o ascensor de peitoral e já deixo preso o mosquetão azul de segurança, que será usado a seguir para não deixar o cabo/ corda sair do ascensor.

O cabo (adriça da mestra) deverá estar preso em dois pontos: um perto do mastro e o outro, neste caso, na catraca da adriça da mestra. O cabo deverá ser tensionado para não ter folga. Quanto menos folga, mais fácil é subir/descer. Repare também que, além do cabo estar travado no mordedor, foram dadas mais duas voltas e feitos nós em volta da catraca, para garantir que o cabo não se solte. O motivo é simples: este é o lado do cabo que receberá todo o peso do meu corpo e pelo qual subirei no mastro. Se ele se soltar por qualquer motivo, não terei mais sustentação e cairei no deck. Apesar de que veremos a seguir que tenho outro cabo de segurança ou redundância, todo cuidado é pouco.

Este é o ascensor (amarelo) com manopla para a mão direita, que vou usar para me levantar com as pernas. Veja também na foto o ascensor (vermelho) com manopla para a mão esquerda, já passado no cabo e com seu mosquetão de segurança instalado. Este segundo ascensor será usado apenas como segurança, com uma fita anel de nylon presa ao mosquetão do meu colete. O ascensor está aberto e travado na posição aberta, pois ainda vou passá-lo pelo cabo.

Nesta foto fica clara a função do mosquetão travando o cabo para o caso de ele sair do trilho do ascensor.

Mosquetão travando o cabo no trilho do ascensor, por outro ângulo, de cima.

Aqui vemos todos os equipamentos e suas ligações. Temos o cinto amarelo e a cadeirinha ligados ao mosquetão, ligado ao ascensor de peitoral e, note, à fita anel de nylon amarela, que está conectada ao ascensor de segurança vermelho preso ao outro cabo. Também vemos o ascensor com manopla que servirá para, usando as pernas, subir ou descer. A fim de aumentar a segurança, embora não apareça na foto, é recomendável ligar o ascensor das pernas e o do peitoral com outra fita de nylon.

Veja que todos os mosquetões estão travados com sua rosca de segurança.

Início da escalada. Note que, ao esticar a perna, subimos o corpo e, por consequência, subimos o ascensor peitoral (vermelho), aumentando a distância entre este e o ascensor das pernas (amarelo). O próximo movimento será sentar na cadeirinha e, com a mão direita, subir o ascensor das pernas (amarelo) até próximo ao ascensor peitoral (vermelho).

Aqui, fica clara a posição das pernas, com os tênis envoltos pela fita de nylon. Ao esticar as pernas, subimos o corpo junto com o ascensor peitoral, que irá travar na nova posição. Também podemos ver a fita de nylon amarela presa ao outro ascensor no outro cabo, cuja função é servir de segurança/ redundância.

O processo é simples: sentado na cadeirinha, sobe-se o ascensor das pernas até o ascensor peitoral. Então, esticam-se as pernas, o que faz o corpo subir e o ascensor peitoral subir junto, travando na nova posição. Então, com a mão, sobe-se o ascensor das pernas até o ascensor peitoral, repetindo o processo. Para descer, basta inverter o processo: baixa-se o ascensor das pernas, soltando a trava e travando na nova posição. Então, fica-se de pé na fita de nylon e, subindo um pouco o corpo, destrava-se o ascensor peitoral. Segurando a trava para que não prenda no cabo, desce-se o ascensor peitoral até o ascensor das pernas, flexionando as pernas. Trava-se o ascensor peitoral na nova posição. Repete-se o processo.

Nesta foto, tirada em um outro dia, já no topo do mastro, é possível ver o ascensor de segurança/ redundância preso ao outro cabo/ corda. Durante todo o processo de subida e/ ou descida, não esqueça de trazer junto este ascensor, ou será preciso voltar a subir ou descer para alcançá-lo novamente.

Aqui, o ascensor peitoral chegou ao topo do mastro e estou sentado na cadeirinha, sem nenhum esforço nas pernas. Também é possível ver o ascensor das pernas (neste dia, vermelho) um pouco abaixo.

Outro ângulo mostrando todos os ascensores em seus respectivos cabos.

É sempre bom manter os pés nas fitas de nylon, para o caso de precisar se equilibrar enquanto usa as mãos em algum trabalho. Também é possível “abraçar” o mastro com as pernas, como quando subimos somente com a cadeirinha com alguém catracando do deck. A vantagem de usar somente as fitas de nylon para manter o equilíbrio é que não machucamos o interior das coxas, como ocorre quando se “abraça” o mastro com as pernas.

No caso do meu veleiro, no topo do mastro, estou a uma altura de 15 metros. Você tem uma percepção totalmente diferente do mundo quando olha para baixo dessa altura, preso por alguns cabos…

No topo do mastro do veleiro Gaia 1 para manutenção do Wind Vane.

Autor: Max Gorissen

Artigo reproduzido da edição N° 5 da revista SailBrasil Magazine – março 2019 a agosto 2019 e com a autorização do seu autor e editor Max Gorissen – www.sailbrasil.com.br – Todos os direitos reservados.

Fotos: Max Gorissen


Descubra mais sobre Max Gorissen

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.