Tenho como sonho um dia poder implementar uma iniciativa para preservar o patrimônio náutico brasileiro… por isso, já pensando em algum dia poder implementá-lo, além do Cadastro de Veleiros Clássicos, decidi pesquisar e escrever artigos sobre diversos assuntos relacionados à vela brasileira, entre eles, os veleiros desenvolvidos no Brasil… é sobre isso que irá encontrar informações no texto abaixo… caso possa colaborar com informações ou registros históricos, entre em contato. O que não podemos deixar acontecer é essa história se perder.
Max Gorissen – Velejador. Escritor.

No inverno de 1922, o Sr.Charles L. Harding (1873-1952), encomendou ao Estaleiro Herreshoff (1878-1945) de Bristol, Rode Island – USA, um projeto para a construção de uma escuna para participar das regatas da ASTOR CUP, a ser realizada no verão de 1923 e, até então, patrocinada pelo New York Yacht Club.1
O Estaleiro Herreshoff, que pertencia desde o ano de 1863 aos irmãos Nathanael Greene Herreshoff (Nat), formado em Arquitetura Naval e Engenharia Mecânica pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology) e seu irmão John Brown Francis Herreshoff, foi escolhido para tal projeto.


Uma vez tendo as especificações definidas, seguindo uma das características comum a todos os projetos dos irmãos Herreshoff, foi esculpido uma meia maquete do conceito de arquitetura naval (basicamente o casco com suas obras vivas e obras mortas – ver em “Planos” a seguir) em madeira maciça.
Com as formas e proporções que imaginavam para o veleiro atendidas, esta meia maquete foi cortada transversalmente em várias partes para então produzir o desenho das cavernas.
No outono ou segundo semestre de 1922, o Sr.Charles L. Harding aprovou o projeto de Nat Herreshoff e autorizou o início da construção do veleiro que viria a se chamar WILDFIRE, mais precisamente conhecido como; o Race Auxiliary Schooner Wildfire.
A construção teve início em dezembro 1922 e foi para a água em maio de 1923, ou seja, foi construído em apensa 6 meses!!


Características técnicas e especificações
O projeto aprovado previa a construção de um veleiro de dois mastros, sendo o maior de 38 metros de altura, armado em escuna, com 85 pés de convés e 105 pés de LOA (Lengh Over All – comprimento total), incluindo neste, o comprimento do gurupés.
Ainda, o veleiro possuiria um calado de 3,8 metros e um total de 90 toneladas de deslocamento.
Toda a estrutura e o chapeamento do casco foram construídos em aço carbono ASTM 131A com as “costuras” entre as fieiras de chapas, rebitados com milhares de rebites colocados a quentes no casco por um lado e, arrebitados com marteletes pelo outro, unindo, assim, as duas chapas entre si (as chapas eram sobrepostas por uma largura de aproximadamente 3” para permitir a vedação). Estas fieiras, por sua vez, também eram rebitadas à estrutura das cavernas e a quilha.
O Deck, foi todo construído em madeira maciça de Teca com 3” de espessura e calafetado.
O interior do Wildfire era composto pela cabine do armador, cabines dos convidados e dos tripulantes, além da cozinha e dos banheiros.
Completando os luxuosos ambientes, uma enorme sala de estar para receber convidados e saborear uma Champanhe ao final das regatas.

Todo o veleiro e, principalmente seu interior, foi desenhado nos mínimos detalhes, tendo sido especificados os melhores materiais da época e incorporado ao projeto vários requintes como, por exemplo, o do corrimão da escada de acesso ao interior do barco e o dos trincos das gaiútas do casario.

Os primeiros anos do Wildfire
Uma vez lançado e batizado com o nome de Wildfire, o veleiro realizou sua primeira navegação rumo ao Eastern Yacht Club em Boston, MA – USA.
Em agosto de 1923, cumprindo o cronograma, o veleiro estreia sua primeira regata na tão esperada ASTOR CUP, ganhando a competição e provando assim a capacidade e a qualidade dos projetos do já famoso Nat Herreshoff.
Após anos de regatas e cruzeiros, competindo e velejando em grande estilo, em 1926, o Sr.Charles L.Harding, vende o veleiro.
Durante a segunda guerra mundial (1939-1945), o veleiro é requisitado pela Marinha Americana para patrulhar a costa dos EUA, ficando à disposição do governo americano até 1945.
Wildfire muda de país e de nome
Com o fim da guerra e, novamente de posse do veleiro, o então “novo proprietário” de 1926, por sua vez, o vende no ano de 1946 para o brasileiro Jorge Behring.
O Sr.Jorge Behring, rebatiza o veleiro trocando o seu nome de “Wildfire” para “Atrevida”, nome com o qual o conhecemos até hoje, ostentando o pavilhão nacional brasileiro em sua popa.
Em 1949, o Sr.Jorge Behring o vende para o empresário da indústria farmacêutica, o Sr. Dirceu Fontoura (Inventor do famoso Biotônico Fontoura).
Imediatamente, o Sr. Dirceu Fontoura resolveu modificar as suas características de barco de regata para iate de passeio e, para isso, incumbiu Ebhard Fischer, projetista Alemão naturalizado brasileiro e “pai” de toda uma geração de projetistas e construtores de barcos brasileiros (projetou, entre outros, o Toninha e o Dourado), além de “introdutor” dos multicascos no Brasil (em 1961, projetou e construiu o Manta, um catamarã de 13 metros que ele próprio levou para vender nos Estados Unidos e que ainda hoje é apontado como um dos melhores barcos desse tipo na Costa Leste americana).
A mudança do Atrevida foi tão radical que o barco teve o calado reduzido de 5,40 metros para cerca de quatro metros, ficando mais dócil e perdendo muito pouco do seu excepcional desempenho.
Durante a propriedade e o comando do Sr.Dirceu Fontoura, o veleiro Atrevida foi palco de inúmeras recepções a bordo, com participação de ilustres convidados, inclusive, de Reis e de Rainhas, além, é claro, de personalidade como Frank Sinatra e Henry Kissinger, entre muitos outros VIPs e Jet Sets da época, tudo e todos registrados no Diário de Bordo pelo comandante do veleiro a época, o espanhol Manolo.

O Sr.Dirceu Fontoura, manteve o veleiro no Iate Clube do Rio de Janeiro até a data do seu falecimento, década de 80, quando o mesmo passou por herança para sua filha Christina e seu genro Auro de Moura Andrade.
Durante a propriedade e comando do casal Christina e Auro de Moura Andrade, o veleiro passou por diversas reformas e melhorias como, por exemplo, novos mastros de alumínio (eram de madeira) produzidos pela empresa gaúcha Nautec.
Nesta época, todas as docagens para manutenção periódica foram realizadas pelo estaleiro Wilson Sons do Guarujá, único, na época, com capacidade em seu dique seco para este grande veleiro.
Devido a dificuldades financeiras, o casal Christina e Auro, perdeu o barco para a financeira dos carros Nissan e o veleiro ficou abandonado e se degradou durante a disputa judicial.
Antes que naufragasse, foi colocado em um estaleiro no Rio de Janeiro onde foi parcialmente saqueado, indo a leilão pouco tempo depois quando, o Sr.Gilberto Miranda Batista, o arrematou e o resgatou.
Novo dono, nova fase
Na sequência do “resgate”, necessitando de uma grande reforma, inclusive estrutural, o veleiro Atrevida navegou para Santos onde foi içado ao seco pela Cabrera Pará e levado para o estaleiro da MCP que, na época, tinha suas instalações na Ponta da Praia de Santos.
A MCP, por sua vez, fez um trabalho minucioso de estudo e de “arqueologia”, indo buscar toda a informação técnica e os projetos originais do veleiro no Museu Herreshoff (Todos os desenhos ainda se encontram disponíveis no Museu Herreshoff em Bristol, RI – USA) que, prontamente, cedeu os projetos de design e de construção ao novo proprietário que se propôs a fazer uma restauração detalhada e a retornar o veleiro à sua forma original.

Assim, todo o chapeamento e as partes da estrutura foram revisados, todo o interior foi reconstruído em seu lay out original, tudo nos mínimos detalhes e seguindo os desenhos originais.
Os novos casarios, incorporados ao longo dos anos, também danificados, foram removidos e substituídos por novos, seguindo os projetos dos casarios originais, em madeira, com todos os vidros bisotados.
Em 2012, o veleiro Atrevida passou por uma nova reforma, recebendo um novo deck em Teca que substituiu o anterior e, novos casarios, agora construídos também em madeira Teca, como os originais (Na primeira reforma, após o quase naufrágio foram feitos casarios de outras madeiras, contudo, estas tiveram vida curta e apodreceram).


Um detalhe especial foi o uso de verniz sobre a Teca que, quando envernizada, fica com um tom dourado muito bonito. Além disso, este procedimento de envernizar a Teca aumenta em muito a já conhecida resistência desta madeira que dificilmente irá apodrecer, já que, além desta nova proteção, possui grande quantidade de óleo e de sílicas.

Na reforma da década de 90, os mastros da Nautec, por instrução dos proprietários, foram produzidos abaixo da sua altura original. Com isso, o veleiro nunca mais alcançou o desempenho desejado e, por este motivo, na reforma de 2012, novos mastro e novas velas foram encomendados e produzidos pelas firmas King (mastros) e North Sails (velas) da Argentina que, com base nos projetos originais de Nat Herreshoff de mastreação e de velame, retornaram o veleiro a sua potência e performance originais.
Após esta última restauração, o veleiro Atrevida passou a ter uma vida “agitada”, participado ativamente de regatas de clássicos, tanto no Brasil como no Caribe e em Punta Del Este – Uruguai, mostrando toda sua força, apesar de seus mais de 100 anos de existência, fazendo jus a seu reconhecido pedigree de um bom regateiro.

O Atrevida foi vendido no ano de 2019 para…
Especificações
- Ano de Fabricação: 1923 (maio)
- Outros nomes: Wildfire
- Estaleiro: Estaleiro Herreshoff (1878-1945) de Bristol, Rode Island – USA
- Material construtivo: aço carbono ASTM 131A com as “costuras” entre as fieiras de chapas, rebitados com milhares de rebites colocados a quentes no casco por um lado e, arrebitados com marteletes pelo outro.
- Armação: Race Auxiliary Schooner Wildfire (Palhabote em Português) – Auxiliary Race Schooner é um Palhabote de regata com motor propulsor, isto apareceu em 1914 quando o Cap.Net Herreshoff inventou a hélice folding.
- Propulsão: Motor Scannia DI12 380 HP
- Tripulantes/ Passageiros: 12+1
- Numeral: BL 8 (Wildfire D 22 nos USA)
- Comprimento: 95’ (LOD) ou 29,00 m
- Design No.:
- Linha d’água (m):
- Boca (m): 6,00 m
- Calado (m): 3,80 m
- Área velica (m²):
- Deslocamento (Kg): 85.000 Kg
- Projetista: Nathanael Greene Herreshoff (Nat)
- Proprietários conhecidos: Charles L.Harding, Marinha USA (durante a guerra), Jorge Behring, Dirceu Fontoura, Christina e Auro de Moura Andrade, Gilberto Miranda Batista
- Observações: Encomendado por Sr. Charles L. Harding (1873-1952).
Planos


Regatas
Durante os últimos anos, o Atrevida participou de várias Semana de Vela Ilhabela, Suzuki, Clássicos de Búzios, Semana de Clássicos de PDE, Antigua Classics, Heineken Regatta St Maaten, St Barth New Year’s Eve, REFENO, entre outras.
| Regata | Posição |
|---|---|
| Buenos Aires – Rio de Janeiro 1950 | DNC |
| Astor Cup 1923 | 1º lugar com Sr.Charles L.Harding |

Matérias da época
Matéria “Atrevida – Uma lenda e suas muitas bandeiras”. Revista Vela e Motor – Ano I – No. 6 de setembro de 1977. Todos os direitos reservados. Proibida sua reprodução.
Sobre o Projetista Eberhard Fischer: O fim de uma era.
Texto copiado e reeditado por Gustavo “Rato” Pacheco – matéria provavelmente escrita por Lopes Setti para o Jornal do Brasil – 01/10/1988.
Reformas:
- Restauração na MCP Yachts
- Atrevida passa por nova Manutenção Preventiva e Pintura de Fundo – por Raymond Grantham
Agradecimentos
- Raymond Grantham
- Atila Bohn (Capitão do Atrevida nos últimos 15 anos)
Espero que tenha gostado pois, cada embarcação clássica tem uma história única para contar e que pode servir de referência e consulta para historiadores, pessoas e instituições interessadas, antigos e novos proprietários e o público em geral, promovendo assim a rica e as intrigantes histórias associadas a esses clássicos e preservando e aumentando assim seu significado cultural para as gerações futuras.
Bons ventos!
Max Gorissen
Velejador. Escritor.
Notas de Rodapé (também incluídas no texto acima em Links e referências bibliográficos e informativa)
- O texto deste artigo foi escrito na sua maior parte por Atila Bohn, Capitão do veleiro Atrevida, no ano de 2015, com o apoio de Max Gorissen para o site SailBrasil. ↩︎
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