Construção de uma nova retranca e carangueja para a mestra do Gabiru

Em fevereiro de 2026, recebi uma sacola contendo várias peças antigas, ou melhor, “sobras”, de alguns veleiros e, imediatamente, minha atenção se voltou para uma em particular; a “ferradura”, “garra” ou “chifre de rizo” para a retranca do Sharpie 12m².

Imediatamente, decidi de que esta belíssima peça, provavelmente uma inovação da engenharia náutica da época e “objeto” de desejo dos melhores velejadores de então, não deveria simplesmente ficar guardada em alguma caixa ou servir como artefato de decoração. Deveria voltar a ser usada no meu Sharpie 12m² de 1956 “Gabiru”.

Peças doadas pelo Gustavo “Rato” Pacheco. No primeiro plano da foto, detalhe da “ferradura”, “garra” ou “chifre de rizo” para a retranca do Sharpie 12m². Foto: Max Gorissen
Alguns “aparelhos” de armação sobressalentes que vieram com o Gabiru e que acabei guardando na garagem de casa pois tentei “doar” e ninguém quis. Foto: Max Gorissen

Como havia guardado na garagem de casa um série de “aparelhos” de armação que haviam vindo com o Gabiru, selecionei uma retranca e uma carangueja do lote, dentro das medidas mínimas necessárias, o que facilitaria o trabalho, pois não teria de construir do “zero” ambos aparelhos.

Então, em uma conversa com o Gustavo “Rato” Pacheco, ele não só me esclareceu como as peças que me doou funcionariam em conjunto, mas também me mandou os desenhos e fotos do funcionamento dos sistemas.

Desenhos de Gustavo “Rato” Pacheco. Na foto ao centro, detalhe da “ferradura”, “garra” ou “chifre de rizo” na retranca do veleiro Sharpie 12m² Nautilus IV, na época, de propriedade do próprio Pacheco. Desenhos e foto: Acervo de Gustavo “Rato” Pacheco. Todos os direitos reservados. Proibida sua reprodução.

Na época, imaginei que poderia usar a “ferradura” para a escota da vela mestra em conjunto com um “garlindéu giratório” (como no desenho à esquerda) que me permitiria “enrolar e rizar” a vela mestra na retranca. Assim, decidi construir um novo garlindéu com base no desenho do Gustavo.

Iniciei o trabalho, como mencionado, escolhendo uma retranca e uma carangueja (gaff) entre as que tinha guardadas e, depois de cortar na medida, “plugar” os buracos, remover pedaços podres e preencher com madeira “nova” e, por fim, lixar tudo até ficar sem as marcas de tantos anos de uso, finalizei o trabalho com três demãos de verniz em cada uma e, seguindo o padrão que adotei na armação do Gabiru, três demãos de tinta branca “Oyster White” nas pontas que se “juntam” ao mastro.

Cortando na medida, “plugando” os buracos, removendo os pedaços podres que são preenchidos com madeira “nova” e, por fim, lixando tudo até ficar sem as marcas de tantos anos de uso e finalizando o trabalho com três demãos de verniz em cada uma e a pintura das “pontas” em branco “Oyster White”. Fotos: Max Gorissen

Também construí uma nova “ponte de ligação” para “travar” as duas peças em formato de “ferradura” (garra ou “chifre de rizo”), cada uma contendo quatro roletes de madeira, e que serve para “rizar” (enrolar) a vela mestra em torno da retranca e fixar os moitões da escota.

Seguindo meu objetivo de sempre “reciclar” e “construir artesanalmente”, em vez de usar uma madeira nova, peguei as ripas de uma persiana de mogno antiga e uma chapa de alumínio e “construí” a “ponte de ligação”, seguindo um processo de laminação, com a chapa de alumínio no meio e as quatro ripas, duas de cada lado, tudo colado e cortado à medida.

Processo de construção de uma nova “ponte de ligação” para “travar” as duas peças em formato de “ferradura” (garra ou “chifre de rizo”). Fotos: Max Gorissen

Também aproveitei para modificar a peça cilíndrica de latão proveniente de algum tope de um mastro de carangueja antigo, cortando e moldando na esmerilhadeira, até chegar ao formato que eu queria para usar como ponteira da retranca, onde será instalado um “vergão” com garfo para manter as “ferraduras” no lugar (ver desenho do Gustavo acima à direita).

Peça de latão que vai ser usada como ponteira da retranca, já polida e com seus “pedaços” removidos, e a nova “ponte de ligação” para “travar” as duas peças em formato de “ferradura” (garra ou “chifre de rizo”) finalizada com duas demãos de verniz. Fotos: Max Gorissen

Para fabricar o novo garlindéu de metal com enrolador, seguindo meu objetivo de sempre “reciclar” e “construir artesanalmente”, fui a um ferro velho comprar umas barras/ blocos e uma haste/ cilindro, ambos sólidos de alumínio… pois é, decidi fabricar o novo garlindéu com enrolador em alumínio (teria sido mais fácil construir em latão, como descobri depois).

De posse dos materiais, após pensar e desenhar nas peças brutas todas as medidas, coloquei todos os EPI’s para me proteger de lascas (aparas ou fragmentos afiados) de metal e, porventura, de pedaços de disco da esmerilhadeira angular que, quando quebra algum disco, este se despedaça lançando metal a grande velocidade… bem, como todo trabalho amador com equipamentos amadores, gastei 3 horas para fazer uma ferragem em formato de “U”, ainda precisando de acabamento.

Barra/ bloco e haste/ cilindro, ambos sólidos de alumínio, se transforma em uma “ferragem” em formato de “U” para o garlindéu. Fotos: Max Gorissen

Esta nova peça, é só o corpo do garlindéu, e vai ainda precisar melhorar o formato e acabamento, para depois instalar o “pino de giro com trava e mola” e o “pino” que vai no “olhal” no mastro que ainda vou construir.

OBSERVAÇÃO: Depois desta primeira experiência de “serralheiro”, descobri de que não gosto de trabalhar com metal! Meu negócio é madeira!!!! Mas comecei e agora tenho que terminar!

Resumindo um árduo e longo trabalho, após muito corte e lixa, terminei o garlindéu com o mecanismo que permite enrolar a vela mestra na retranca.

Processo de construção, a partir de matéria “bruta”, do novo garlindéu. Fotos: Max Gorissen

Funcionamento do “novo” garlindéu com sistema de “rotação”. Vídeo: Max Gorissen

Contudo, depois de um teste com a mestra e a retranca, percebi de que o espaço disponível “dentro” das ferraduras só dá para reduzir a vela em “dois giros” da retranca, ou seja, consigo apenas diminuir uns 20 cm de mestra.

Para um veleiro que possui 14,92 m² de área velica, a redução, ao todo, representaria por volta de uns 5%, ou seja, praticamente nada!

Por isso, vou construir um garlindéu normal fixo, junto com as ferraduras na nova retranca, pois este é um sistema que originalmente se usava muito em 1956.

Voltei ao ferro-velho para adquirir novos materiais para construir o garlindéu e acabei optando por uma barra de latão e um pino/ cilindro de aço inox. O latão é mais fácil de trabalhar de maneira artesanal e de dobrar/ curvar “manualmente” do que o aço inox e, para a aplicação, sua resistência é mais do que suficiente.

Na morsa fixa na bancada, trabalhei praticamente por uma hora dobrando e moldando a barra até atingir um “shape” que correspondesse a uma “peça” onde: 1) consiga instalar e segurar o pino que vai no olhal do mastro e que depois será soldado e; 2) o formato encaixe perfeitamente no formato que talhei na ponta da retranca de madeira.

Parte do processo de dobrar/ curvar “manualmente” o latão para encaixar na ponteira da retranca. Fotos: Max Gorissen

Tendo o “shape” testado (encaixe) e finalizado, levei a nova “peça” de latão e o pino de aço inox para um soldador perto de casa que soldou os dois para formar o que “agora” podemos chamar de um “garlindéu”.

Com a peça soldada, fiz os furos na posição que queria.

O soldador, a peça após a solda e que agora pode ser chamada de garlindéu e fazendo os furos antes de lixar tudo para ficar com uma superfície lisa e instalar na retranca. Fotos: Max Gorissen

Depois de lixar tudo com lixa 120, fiz ainda duas “placas” para cobrir e segurar o parafuso que permite girar e mantém a roldana na sua posição. Só então, “com muito cuidado”, fiz a furação e a instalação de tudo que construí.

Para finalizar, segue um vídeo mostrando as novas retranca e carangueja do Gabiru. Ficaram perfeitas!

Quer saber mais sobre o Gabiru e sua história desde o dia em que foi construído em 1956 pelo estaleiro Flório Zotarelli – Guarapiranga – SP? Acesse sua página clicando aqui.

Quer saber mais sobre a história da Classe Sharpie 12m²? Leia gratuitamente meu livro: Sharpie 12m² – A história destes veleiros no Brasil.

Espero que tenha gostado!

Bons ventos!

Max Gorissen


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