Especificações
- Ano de Fabricação: 1939
- Outros nomes:
- Modelo: Classe Internacional 5 metros (5m RI)
- Estaleiro:
- Material construtivo: Madeira
- Propulsão:
- Tripulantes/ Passageiros:
- Numeral: S 47 e BL 5
- Comprimento: 30′ 50″ pés ou 9,295 m
- Design No.:
- Linha d’água (m): 5,733 m
- Boca (m): 1,80 m
- Calado (m): 1,09 m
- Área velica (m²): m²
- Deslocamento (Kg): 1985 kg
- Projetista: Tord Sundén
- Proprietários conhecidos: Gunnar Engberg (1939), Ragnar Janér (1948), Walter V.Hütschler* (1950), Werber August Hackerott (adquiriu o Fri em 1963 até meados dos 80 – veja relato abaixo), Ernesto Robba (meado dos anos 80 – Yacht Club Itaupu)
- Observações:
* Walter V.Hütschler, nascido na Alemanha, foi bi-campeão mundial de Star conquistando seus títulos mundiais em 1938 e 1939.
Depoimentos
Em uma conversa com Frederico Hackeroff, ele contou a história dos veleiros após os ano de 1963, que reproduzo aqui na íntegra:
“Meu pai, Werber August Hackerott, no ano de 1963, adquiriu de W. Klee o último dos seis 5m ainda disponível no hangar do então Iate Clube Bandeirantes, na Represa Billings. Era o veleiro FRI, numeral S 47. Lembro de que o veleiro havia ficado por alguns anos no “seco” e, quando meu pai levou o veleiro para o Iate Clube Santa Paula na Represa de Guarapiranga, a primeira providência foi colocar o veleiro na água que, naturalmente, com todas suas madeiras secas por ficar fora da água por tantos anos, naufragou. Esse era o objetivo. Amarrado numa parte rasa de uns 1,5 metros, o veleiro ficou duas semanas afundado para que as madeiras pudessem absorver a água. Tivemos de instalar uma bomba d’água para tirar toda a água de dentro do casco. De lá foi para uma poita em frente ao clube e era velejado com muita frequência por meu pai com os filhos e amigos como tripulantes.
O motivo que levou toda a classe 5M a transferir-se da Billings para a Guarapiranga foi a grande poluição das águas causada pelo bombeamento do Rio Pinheiros. A partir de 1960 ficou inviável o uso da Billings para velejar.
Os 5m eram um espetáculo. Casco de “mogno” avermelhado, com cavername claro de “carvalho europeu”, todo rebitado com “pregos de cobre”. O mastro, retranca, o pau-de-spy e os moitões eram de “pinho de riga”, bonito e resistente. As velas eram de algodão, e havia até um jogo em linho egípcio. Lembro de que quando chovia elas encharcavam e tínhamos de mudar rapidamente toda a regulagem das velas. Cabos eram de cânhamo, ferragens de ferro galvanizado. Inox entrou depois. Dacron nas velas aconteceu a partir de 1968. Tinham cockpits separados para comandante e para proeiros. Primeira e segunda classe a bordo. Em vento forte os cascos de tabuado de madeira permitiam a entrada de água, e os proeiros se revezam na bomba de porão.
Um tempo depois, mudamos para o Yacht Club Paulista, pois o Santa Paula não apresentava boa infraestrutura para vela (era um clube social). Uma anedota que lembro é que o galpão do YCP que estava sendo construído naquela época, teve a altura da entrada definida com base na altura do mastro do 5m na carreta.
Outra curiosidade era de que haviam liberado o tamanho dos balões (Spinnakers) dos 5m e se você olhar as fotos os velejadores fizeram uns balões enormes. O interessante era de que estes eram confeccionados em Nylon e, por seu tamanho e delicadeza do material, rasgavam facilmente. Na época, quem costurava os balões rasgados era a Sra. Dombrowsky e, acho que foi assim que teve início a famosa veleria Dombra Sails.
Com relação aos numerais, o coordenados da classe decidiu que não fazia sentido usar o numeral europeu. Assim, foram atribuídos a cada veleiro novos numerais, que passariam a adotar o “BL”. Com essa decisão, o Greif ficou com o BL 1, o Hansa ficou com o BL 2, o Vinga com o BL 3, o Manajó com o BL 4, o Sjutusa com o BL 5 e a Fri com o BL 6.
Os campeonatos e taças da época eram os mesmos da origem da classe na Represa Billings, e foram incluídos no calendário oficial da FPI, atual FEVESP. Além dos seis veleiros 5m, também participava na classe um Dragão que na flotilha tinha desempenho idêntico. O campeonato mais importante era o Paulista, que era geralmente disputado junto com os Star e os Lightning. A Fri era dentre os 5m a mais rápida, e era o “veleiro a se vencer”.
A classe foi bem ativa na Guarapiranga nos anos 70 e 80 e se alguém dizia de que não iria participar de uma regata era procurado por todos e convencido a ir. Não deixávamos que ninguém desanimasse. Tinha muita integração fora d’água também, com reuniões no Clube Transatlântico, em restaurantes, e nas residências dos velejadores da classe. Na raia, tínhamos quase sempre os seis 5m e o Dragão. Foram regatas competitivas, e que deixaram boas lembranças.
Para mim, que também velejava de Snipe, tive bons momentos e aprendi muito na classe 5m que, aliás, proporcionou a minha passagem para a vela oceânica. Velejadores de Santos procuravam os da classe 5m, que dominavam as técnicas com o balão e tinham habilidade diferenciada com o timão.
A classe mantinha tradições únicas da vela clássica. Após as regatas, o veleiro vencedor postava-se próximo a linha de chegada e todos os demais passavam ao seu lado de boreste e o saudavam pela vitória com um sonoro “HYP, HYP, HURRA ! Isso era obrigatório e os poucos que falhavam eram provocados como “maus perdedores”. Na classe também nunca houve protestos julgados em terra . O “fair play” imperava forte nas regatas. Lembro de ter desistido voluntariamente após ter cometido infração. Naquele tempo não se pagava dando duas voltas com o veleiro. Outra tradição era os veleiros terem um bar a bordo e, depois da regata, a tripulação brindava entre si e para os concorrentes. Isso era memorável nas regatas noturnas que a classe disputava e principalmente nos dias de inverno que sempre tinham forte neblina na represa.
Os veleiros nesse período na Guarapiranga tinham os seguintes proprietários, características e localização:
- O GREIF BL 1, era do Hartwig Hellner, e ficava no YCSA. Sempre muito bem cuidado. Era todo envernizado.
- O HANSA BL 2 era do meu xará Karl Friedrich Krüder e ficava no CCSP. Também todo envernizado. O Krüder foi nesse período o líder da flotilha e coordenador da classe perante a Federação.
- O VINGA BL 3 era do Carlo Castelli, que o adquiriu de um suíço e ficava no CCC. Tinha o casco vermelho e convés branco.
- O MARAJÓ BL 4 era do Arthur Chaves e ficava no CCSP. Tinha o casco branco.
- O SJUTUSA BL5 era do Kurt Stucksa e ficava no CCC. Era todo envernizado.
- E a FRI BL 6 era do meu pai, e ficava no YCP. Tinha originalmente o casco branco com fundo verde, depois todo azulão e voltou a ser branco com fundo em cobre por volta de 1980.“
- O DRAGÃO (Bevette/Chinook) pertencia a Karl Stegmann e ficava no YCSA. Tinha o casco amarelo.
Todos ficavam fundeados em poitas, porque fora d’água o tabuado ressecava e abria. Cobertos com lonas para proteção confeccionadas pelo Carlito (Lonas Carlito).
Curioso era que a FRI sempre foi tratada no feminino. Talvez por ter linhas bem graciosas. Era realmente linda a Fri.
No final dos anos 80 e, durante a década de 90, os veleiros começaram a se dispersar. Os donos iam ficando velhos ou faleceram, e novas classes atraíam os filhos. Eu, por exemplo, velejei muito e venci muitas regatas na FRI, contudo, como presente de aniversário no ano de 1964 ganhei um Snipe de nome SKUA, numeral BL 10642, e desde então, há 61 anos, velejo ativamente na classe Snipe e, desde o ano passado, na categoria Legend Master. Por saudades do prazer em velejar no 5m, em 1992 comprei um Soling, o “Feitiço”, velejando com ele sempre que posso nas águas de Ubatuba.
Quanto ao destino dos 5m depois desses anos dourados, sei que o Greif está na Alemanha, ainda com a família Hellner. O Hansa, quando o Krüder faleceu ficou um tempo sob cuidados do meu pai, e depois foi vendido para um velejador de Niterói-RJ, e agora soube de que está sendo restaurado pelo Andy Dieberger em Barra Bonita. O Manajó (Sjömej), com a morte do Chaves, ficou abandonado em uma poita no CCSP por muitos anos e, por ficar bem estragado, foi sucateado para retirada da quilha de chumbo de meia tonelada e o casco virou fogueira.
Com a classe desfalcada e desmotivada, o meu pai decidiu vender a FRI. O comprador foi um professor da Politécnica da USP – Ernesto Robba, que a levou para Yacht Club Itaupu. Depois passou um bom tempo fundeada defronte o Clube Náutico na Riviera Paulista e de lá desapareceu. Um amigo de meu pai disse que viu e fotografou o Fri no Bodensee, sul da Alemanha, mas perfeu a foto. Ótimo se teve mesmo esse destino!
Os outros não me lembro… O dragão foi ressuscitado e veleja agora em Ubatuba/Parati.
E assim a classe acabou em São Paulo; todavia, deixou ótimas lembranças a todos os que tiveram a oportunidade de velejar nela, ou de assistirem esses majestosos veleiros navegando.
Seguem algumas fotos e planos de design.


A fórmula usada para determinar a classe
A fórmula de medição é dada na 2021 International Five Metre Rating Rules:
5.000 metros=L+S2−F−B22

Planos


Principais regatas e sua colocação
| Regata | Posição |
| 1º Troféu 5m R – Represa Nova (Billings) – SP – 24/07/1949 (utilizou-se as normas de regata da Scandinavian Gold Cup) | 2º lugar com o timoneiro Ragnar Janér e os proeiros Walter von Hutschler e Robert Mellin. |
| 2º Etapa do Troféu 5m R – Represa Nova (Billings) – SP – 25/09/1949 (utilizou-se as normas de regata da Scandinavian Gold Cup) | 1º lugar com o timoneiro Ragnar Janér com o tempo de 2h 13m e 53s. |
| Regata Yacht Club Eldorado – Represa Nova (Billings), São Paulo – 18 e 19/11/1950 | 2º lugar com o timoneiro Walter V.Hütschler |
| Regata inaugural do Yacht Club El-Dorado – Represa Nova (Billings), São Paulo – 29/11/1951 | 2º lugar com o timoneiro Walter V. Hütschler com o tempo de 1h 07m e 15s. |
| II Volta da Represa Billings – Represa Nova (Billings), São Paulo – 29/04/1951 | DNF* com o timoneiro Walter V.Hütschler |
* O 5m R Fri, comandado por Walter V.Hütschler, bi-campeão mundial de Star, não correu dentro das regulamentações que regiam o programa, exigindo-se que todo comandante e todo barco estejam regularmente inscritos em uma das flotilhas do Clube. Embora este 5m R pertença à Flotilha “F” do ICCS, seu comandante-timoneiro, durante esta regata, não é associado do Clube, não sendo, assim, válida a prova para ele, de acordo com decisão da Comissão de Regata. Foi realmente lamentável Von Hütschler não ter cumprido com esta exigência, pois teria sido reconhecida a sua então significativa 1º colocação na classe de 5m R, e 2º geral, logo atrás do “Fita Azul”, o Star “Caiçara”.
Artigos
Matéria sobre o 1º Troféu 5m R, realizada dia 24-07-1949 na Represa Nova (Billings) em São Paulo – SP. Revista Yachting Brasileiro No. 58 de agosto de 1949. Todos os direitos reservados. Proibida sua reprodução.
Artigo na Revista Yachting Brasileiro No. 84 de outubro de 1951 – Todos os direitos reservados – Proibida sua reprodução.
Fotos



Veleiros 5m RI com o Greif em primeiro plano, instantes depois da largada da regata do 4º aniversário do ICCS (Iate Clube Cruzeiro do Sul) na Represa Billings – SP realizada em 10/09/1951 – Foto: Alberto João na Revista Yachting Brasileiro No. 84 de outubro de 1951 – Todos os direitos reservados – Proibida sua reprodução.




Walter Von Hütschler
Tenho como sonho um dia poder implementar uma iniciativa para preservar o patrimônio náutico brasileiro… por isso, já pensando em algum dia poder implementá-lo, além do Cadastro de Veleiros Clássicos, decidi pesquisar e escrever artigos sobre diversos assuntos relacionados à vela brasileira, entre eles, os veleiros desenvolvidos no Brasil… é sobre isso que irá encontrar informações no texto abaixo… caso possa colaborar com informações ou registros históricos, entre em contato. O que não podemos deixar acontecer é essa história se perder.
Max Gorissen – Velejador. Escritor.
Descubra mais sobre Max Gorissen
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