O que aconteceu com os veleiros de cruzeiro entre 30 e 35 pés?

Estes veleiros, com 9,10 a 10,70 metros, possuem as características certas para quem quer ter um veleiro; são espaçosos, velejam bem, precisam de pouca ou nenhuma tripulação e são financeiramente “gerenciáveis”. Então, por que tão poucos são produzidos?

Há alguns anos, quem visitasse qualquer marina ou Iate Clube no Brasil, perceberia que os veleiros na faixa dos 30 pés eram maioria, tanto nas vagas secas quanto nas molhadas.

Isso mudou e você vai entender a seguir o porquê.

Hoje, enquanto veleiros na faixa dos 40 a 50 pés são a última moda nos boat shows, não se pode negar que, velejar ou pernoitar em um veleiro grande o suficiente para acolher familiares e amigos, mas pequeno o suficiente para ser facilmente mantido e velejado por uma pessoa, os veleiros na faixa dos 30 a 35 pés, possuem o tamanho ideal para qualquer família, não importa o que te digam nos boat shows.

Isso porque, veleiros nesta faixa são fáceis de atracar, simples de velejar, possuem um certo conforto, são mais econômicos e, fundamental em um país onde não se encontra onde guardar, é mais fácil encontrar uma vaga seca/molhada em marinas.

Os veleiros de 30 a 35 pés se encaixam em uma categoria chamada Veleiros Costeiros de Cruzeiro (Coastal Cruzers), que são extremamente populares e variam em tamanho entre cerca de 26 pés e 32 pés.

Para se ter uma ideia, por falta de veleiros novos nessa faixa, estes são os veleiros “de segunda mão” mais procurados e utilizados no Brasil.

Também é o tamanho mais comum na construção amadora, por seu custo acessível, baixa complexidade e de não necessitar de grandes áreas para serem construídos.

Esses veleiros são projetados com vários objetivos, como velocidade e leveza, quando o objetivo for o uso em regatas ou, manuseio no mar e conforto, quando o objetivo for o uso em cruzeiros. São veleiros que permitem pernoitar com certo conforto, contudo, seu uso é mais apropriado ao day-sailing.

Os maiores têm instalações de banho completas, cozinha, sala de estar/ jantar, cabines com camas e pé direito alto, enquanto os modelos menores, com um pé direito normalmente baixo, têm um layout organizado com sofá-cama, fogão de acampamento, pia e, às vezes, uma privada embaixo da cama de proa.

Apesar de muitos serem também considerados como Veleiros Oceânicos (Offshore Cruzers ou Bluewater), os Veleiros Costeiros de Cruzeiro se diferenciam destes por serem mais leves, não possuírem tanto espaço para armazenar várias semanas de provisões e, principalmente, por não oferecer tanto espaço aos seus tripulantes em longas viagens. Além disso, veleiros considerados como oceânicos são normalmente maiores do que 35 pés, sendo a média de cerca de 40 pés.

Entre estas duas categorias, Veleiros Costeiros de Cruzeiro e os Oceânicos, existe uma área “cinzenta”, com veleiros que atendem mais ou menos, melhor ou pior, totalmente ou parcialmente, com mais conforto ou menos conforto, com mais equipamentos ou menos equipamentos… as duas categorias: São os veleiros entre os 31 e os 39 pés.

Apenas como referência para os interessados nesta faixa de veleiros, o tamanho médio dos veleiros nos Estados Unidos é de cerca de 30 a 35 pés de comprimento total (não possuímos estatísticas no Brasil para comparativo). Esses veleiros, como descrito acima, também são classificados nos Estados Unidos como “Cruzeiros Costeiros” (Coastal Cruizers) pois permitem uma segurança durante a navegação considerada suficiente para seu uso oceânico “limitado”.

Em águas interiores, a história muda, pois a área limitada para se velejar e o calado de lagos, represas e rios, restringem o tamanho médio dos veleiros para abaixo dos 30 pés.

Por existirem muitos veleiros “antigos” na faixa dos 30 pés no Brasil, principalmente os chamados tipo IOR (facilmente reconhecidos por sua popa em formato de cunho), vou mencionar a classe Half Ton, uma classe de vela oceânica da antiga IOR – International Offshore Rule – muito utilizada para classificar e medir os veleiros de regata nos anos 70 e 80, e que tinha por intenção usar um sistema de medição único que permitisse, através do cálculo de um handicap (rating), a possibilidade de equiparar veleiros “diferentes”.

A IOR foi de suma importância para o desenvolvimento e a disseminação da vela no Brasil e no mundo, pois levava em consideração, além das características do casco e dos equipamentos, o interior dos veleiros (veleiros de regata normalmente não tem quase nada dentro), que tinham de ser completos, ou seja, interiores que permitissem “viver” e pernoitar no veleiro. Isso permitiu que muitos veleiros construídos para serem de “regata”, fossem também utilizados em cruzeiros com a família nos finais de semana, além, é claro, de participarem de regatas de longo percurso, entre cidades costeiras (como a Santos-Rio) e, até entre países, como a Cape-to-Rio (entre Cape Town na África e o Rio de Janeiro) ou a Buenos Aires-Rio (entre Buenos Aires na Argentina e o Rio de Janeiro no Brasil). Isso fez com que os projetistas desenvolvessem interiores, se não luxuosos, muito bem concebidos e completos para se viver a bordo, já que era fundamental que as pessoas tivessem condições de dormir, comer e fazer outras necessidades a bordo por vários dias longe de terra.

Isso fez surgir várias classes chamadas pela IOR de Two Ton, One Ton, Three-Quarter Ton, Half Ton, Quarter Ton e Mini Ton (2, 1, ¾, ½, ¼ e Mini de toneladas) e correspondentes a aproximadamente 50, 40, 34, 30, 24 e 18 pés.

Apenas para que você tenha assunto para uma conversa no bar, a tonelagem nos barcos refere-se à medida do “Tamisa” de uma embarcação (o rio Tamisa é um curso de água do sul da Inglaterra que banha Oxford e Londres e desagua no mar do Norte). Nada a ver com o peso, mas um sistema arcaico de se calcular o tamanho de um barco levando em conta tanto a sua boca, quanto o seu comprimento. O termo deriva do método medieval de definir o tamanho de um navio por quantos “tons” (tonéis ou barris) de cerveja ele poderia transportar. Para complicar um pouco, os handicaps dentro dos “tons” foram expressos em pés, por faixa de classificação de nível, definidas para agrupar os veleiros de tamanho semelhante (50’, 40’, 34’, 30’, 24’ e 18’) … Como mencionei, boa informação para uma conversa de bar!

Voltando aos veleiros de 30 a 35 pés, estes apresentam certos Prós e Contras:

Preço – seu tamanho os torna Veleiros Oceânicos mais acessíveis.

Conforto – um veleiro de 30 pés é grande o suficiente para caber tudo o que um casal típico precisa para se sentir confortável, inclusive com filhos pequenos, e com algum espaço de sobra. Quase todos os veleiros nesta categoria de tamanho têm pelo menos duas camas para dormir, um banheiro completo com chuveiro, uma mini-cozinha com fogão e pia, tanque de armazenamento de água doce, motor de centro e um inversor para energia da bateria. O que mais você precisa?

Morar no veleiro – se convencionou (ninguém sabe como) de que, para que um veleiro seja considerado um veleiro para se morar a bordo (live aboard), ele precisa ter pelo menos 30 pés. Qualquer coisa menor e o veleiro ficará apertado para qualquer pessoa que não seja um velejador solitário. O veleiro “dito” de tamanho ideal para a maioria das pessoas viver é de entre 35 e 45 pés.

Manutenção – você economizará (comparado com veleiros maiores) dinheiro em reformas e reparos porque estes veleiros usam muitas peças utilizadas em barcos menores (que custam muito menos). Por exemplo, velas, equipamentos, catracas e guinchos são menores. Até quando se trata de cabos (não cordas) estes usam menos, além de serem mais leves (menor diâmetro), do que em um veleiro maior.

Outras vantagens podem ser encontradas em estadias em marinas, tiradas da água para manutenção e serviços em geral que, por serem normalmente cobrados por pé de comprimento, faz com que um veleiro menor tenha um custo menor.

Uso – por fim, veleiros menores podem ser fisicamente mais fáceis de navegar em solitário ou com uma tripulação reduzida, ao contrário de uma embarcação de 40 ou 50 pés que podem exigir assistência mecânica ou algumas “mãos a mais”.

Travessias – os veleiros menores são mais lentos e, num cruzeiro a vela, podem chegar ao porto de destino dias, ou até mesmo semanas, atrás de veleiros maiores e mais rápidos em longas travessias oceânicas. Considere este cenário: dois veleiros cruzaram o Atlântico em uma rota de 4.000 milhas náuticas. O veleiro pequeno faz em média quatro milhas por hora, enquanto o veleiro grande faz em média sete milhas por hora. Se ambos começaram ao mesmo tempo, o pequeno terá completado a travessia duas semanas depois do veleiro maior.

Menos espaço – viver em um veleiro pode ser desafiador e, viver em um veleiro pequeno mais ainda! A relação é simples: quanto menor o veleiro, menos espaço e conforto para os seres humanos “modernos”. Quatro exemplos simples: 1- Você passará mais tempo coletando água pois os tanques de água são menores. E quem conhece sabe como é difícil achar água na costa brasileira; 2- Você não apenas terá que reduzir o tamanho e a quantidade de “coisas” em um veleiro de 30 pés, mas também terá de ser bastante criativo quando se trata de armazenar essas “coisas” dentro do veleiro; 3- Um veleiro pequeno torna mais difícil acomodar a tripulação por longos períodos, o que significa que há menos pessoas para compartilhar o trabalho e os turnos noturnos; 4- Se você planeja velejar com seu cachorro, dependendo do tamanho do seu “tripulante de quatro patas”, a vida vai ficar complicada.

Menos conforto – Não é apenas a condição de vida, a navegação também pode ser bastante desconfortável já que, veleiros menores, tendem a ser mais facilmente lançados em grandes ondas do oceano, fazendo com que o veleiro suba, desça, bata e chacoalhe bastante nas ondas.

Infelizmente, a falta de disponibilidade (há alguns anos) de veleiros “novos a pronta entrega” e na faixa de 30 a 35 pés, demonstra que os grandes estaleiros não têm mais interesse em produzir veleiros menores do que 40 pés. Pena, pois quem quiser este tamanho, diria até um tamanho ideal de veleiro, terá dificuldades de encontrar um para comprar.

Durante os anos 70 e 80, no auge da classe IOR, tivemos muitos modelos de veleiros na faixa dos 30 a 35 pés sendo construídos para atender à classe Half Ton de regatas no Brasil que, como mencionado, vinham com interiores que permitiam realizar cruzeiros e pernoites confortáveis. Muitos desses veleiros ainda existem, tem alta procura e, apesar de seus mais de 40 anos, ainda mantém um bom valor de mercado (principalmente no Brasil dadas as dificuldades e custos de importação – isso mudou em 2022 com a modificação da lei).

Daquela época até os dias de hoje, praticamente todos os principais fabricantes de veleiros têm (ou tiveram) um veleiro de produção na faixa dos 30 pés. Isso ocorre porque eles geralmente são excelentes veleiros “de entrada” para a vela oceânica, fazendo com que muita gente comece por este tamanho e, posteriormente, façam um “upgrade” para tamanhos maiores. Também fazem sucesso pois fornecem quase tudo que um veleiro maior pode oferecer, mas por um custo de manutenção muito menor ou mais “razoável”.

Contudo, apesar da popularidade dessa categoria, o custo em termos de construção e materiais construtivos (e não de equipamentos) de se produzir um veleiro na faixa dos 35 pés é praticamente o mesmo de se produzir um veleiro na faixa dos 40 pés.

Ou seja, o custo para adicionar 5 pés extras é insignificante em termos de construção e materiais construtivos (isso para todos os tamanhos de veleiro), contudo, o valor “percebido” pelo consumidor é exponencialmente maior, o que permite aumentar o valor de venda do veleiro. Então, em determinado momento, a indústria de construtores de veleiros, hoje dominada por poucos estaleiros, se fez a seguinte pergunta: Por que vender um veleiro menor, quando podemos vender um veleiro maior e cobrar mais por isso?

A resposta a esta pergunta fez com que os estaleiros se concentrassem na produção de veleiros mais rentáveis, acima dos 40 pés, contudo, vários estaleiros possuem disponíveis veleiros na faixa dos 30 a 35 pés entre seus designs, não necessariamente a pronta entrega, pois, a grande maioria, somente produz poucos veleiros nesta faixa por ano ou, somente quando solicitado por um cliente.

Para o Brasil, nenhum veleiro nesta faixa foi importado nos últimos anos e, a indústria nacional, como mencionado, somente produz com base em um novo pedido do cliente que, geralmente, acaba comprando um tamanho maior por diversos motivos, entre eles, o valor de revenda, já que, o veleiro maior não desvaloriza tanto quanto o menor devido a lei de oferta e procura.

Resumindo, as economias de escala desempenharam um papel importante na programação de produção dos estaleiros e na escassez de veleiros novos e a pronta entrega na faixa dos 30 a 35 pés.

Além disso, a “nova” geração tem outros objetivos para o veleiro além de velejar e vem procurando neste o mesmo conforto e amenidades que encontra na sua vida em terra, o que, necessariamente, obriga a compra de um veleiro maior, com no mínimo 40 pés, mesmo que, se considerarmos veleiros “similares”, anualmente, um veleiro de 40 pés custe cerca de 75% a mais do que um veleiro de 30 pés para comprar e manter (mesmo sendo apenas 25% mais longo). Pode acreditar em mim… tive por 18 anos um veleiro de 26 pés (o Orm, um Ranger 26 1983) e há 10 anos que tenho um de 40 pés (o Gaia 1, um F&C 40 1987). Mas isso é assunto para ler em Quais são os custos fixos de um veleiro no Brasil?

E foi isso o que aconteceu com os Veleiros de Cruzeiro entre os 30 e os 35 pés no Brasil e no mundo…

Bons ventos!

Max Gorissen

Velejador. Escritor.

Artigo reproduzido da edição N° 9 da revista SailBrasil Magazine – março a agosto 2023 e com a autorização do seu autor e editor Max Gorissen – www.sailbrasil.com.br – Todos os direitos reservados.


Descubra mais sobre Max Gorissen

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.