No dia 19 de março de 2016, às 11 h 45, eu dirigia pela Rodovia dos Imigrantes, indo de São Paulo para o Guarujá com o objetivo de passar o fim de semana em meu veleiro, sozinho, já que minha esposa tinha de trabalhar e meu filho tinha de estudar para as provas.
Meu plano era simples: sair com o veleiro para uma velejada costeira, da marina, que fica no Canal de Bertioga, pela Enseada de Bertioga até o Indaiá; jogar ferro, nadar e comer alguma coisa, retornando ao final da tarde até a marina para dormir… No dia seguinte, sair para velejar percorrendo o mesmo trajeto… Uma típica velejada day-sailing recomendada para quem veleja na região do Guarujá e Bertioga, onde é perigoso fundear para pernoitar.

Partida rumo a Ilhabela…
Enquanto dirigia, ia remoendo e questionando a ideia de repetir o que tenho feito praticamente todo final de semana pelos últimos meses, mesmo possuindo um veleiro de 40 pés… Lembre-se: o bom de possuir um veleiro de 40 pés é a liberdade de fazer escolhas e se aventurar sem limites, a não ser o limite de seu calado e as condições do tempo. Afinal, em um veleiro de 40 pés, podemos viajar para qualquer lugar, ser autossuficientes e não depender de nada por dias.
Enquanto pensava em tudo isso, meu subconsciente já havia decidido partir para uma viagem, mesmo que curta, com o veleiro.
Destino: Ilhabela
Cheguei ao Guarujá em um dia ensolarado e quente, 31º C, e fui comer um sanduíche rápido na Praia da Enseada, antes de fazer um supermercado básico para dois dias.
Com as compras no carro, rumei para a Marinas Nacionais, aonde cheguei às 12 h 45.
Transferi tudo do carro para o veleiro, chequei o nível do diesel e da água nos tanques, que estavam cheios, e parti exatamente às 13 h, informando a sala rádio da marina (Delta 45), pelo canal 68, sobre meus planos: velejada a Ilhabela para pernoite, uma pessoa a bordo, retorno estimado no dia seguinte, domingo, às 20 h… Tudo confirmado e o “Bom passeio” aceito, parti.



Da esquerda para a direita: 11 nós de vento e 7 nós de velocidade. Em algum lugar entre Guarujá e a Ilha de Alcatrazes. A bandeira brasileira se agita feliz à popa.
A viagem do Guarujá até Ilhabela, saindo pelo Canal de Bertioga, é uma reta de mais ou menos 60 milhas náuticas.
Minha estimativa pessimista, navegando a motor – já que a previsão indicava ventos de 1 a 2 nós de Sudoeste –, era sair do canal numa derroca direta traçada do farol da Pedra do Corvo (entrada do Canal de Bertioga) rumo à Ilha de Toque-Toque, entrada sul do Canal de São Sebastião/ Ilhabela. Previa umas sete horas navegando entre 6 e 7 nós, e mais uma hora entre Toque-Toque e a Vila, no centro de Ilhabela, onde pretendia pernoitar.
Está ventando!
Já ao sair pelo canal, uma surpresa: parecia que tinha vento… Passei a balsa, o Forte de São João da Bertioga – localizado na Barra de Bertioga –, as ruínas do Forte de São Filipe da Bertioga – localizado na barra do lado do Guarujá –, o Farol da Pedra do Corvo, e apontei a proa do veleiro para o centro do “chapéu mexicano”, que é como se delineiam as montanhas de Ilhabela vistas de onde eu estava… E não é que tinha vento!
O anemômetro marcava 10 nós de vento Sudoeste, ou seja, vindo quase “na cara”, direto do lado de fora de Ilhabela, o que me fez mudar o rumo para passar por fora da Ilha do Moitão do Trigo, subir a mestra e a genoa, e caçar tudo para orçar ao máximo e não abrir muito do meu destino.
Minha previsão pessimista de ir a motor, definida com base na experiência de diversas velejadas anteriores a Ilhabela, deu lugar ao otimismo e à euforia: tudo indicava que eu tinha pela frente uma velejada maravilhosa, desde que as condições se mantivessem.


Enquanto o pôr do sol se via à popa… a lua aparecia à proa.
E não só se mantiveram como melhoraram! O vento ficou o tempo todo entre 9,5 e 11,5 nós, vindo constante de 100º.
Foi uma velejada daquelas, de justificar todo o dinheiro que se gasta com um veleiro. Dizia para mim mesmo: “Está pago!”
Imagine a cena. O veleiro velejando entre 6,5 e 7,2 nós. A luz cálida do Sol pelo través iluminando tudo e deixando uma sensação gostosa na pele do rosto, aquecida, mas fresca, com a passagem do vento constante pelo corpo. O veleiro adernado, abrindo a superfície da água que cede em jatos de espuma os quais deslizam pelo casco, deixando um rastro de água branca atrás do veleiro à medida que este avança, constante, balanceado, firme na rota e com um balanço suave de sobe e desce nas marolas espaçadas – marolas que fazem a proa passar suave pelos picos e, ao descer, dar aquela batida “seca”, deslocando a água para longe do casco numa onda de spray branco e soltando um barulho de “shuahhh” que só quem veleja no silêncio do mar consegue apreciar… Tudo se repete por horas a fio, até que tive de mudar o rumo com um bordo, rumo à Ilha de Alcatrazes, com a Ilha do Moitão do Trigo pelo través de barla, para, então, voltar a viver as sensações exclusivas de uma velejada.

Vista da vila de Ilhabela.
Rumo a Toque-Toque
Então, com a ilha de Toque-Toque pelo través, novo bordo mudando o rumo para a Ponta da Sela na entrada do canal.
Esse novo bordo teve como característica a diminuição do espaçamento das marolas que, naquele momento, começaram a vir pela proa. Para não ter as “paradas” causadas pelos trancos de batidas da proa nas “ondas”, e poder facilmente surfar as marolas com total controle do rumo do veleiro, liguei o motor – mas mantive uma rotação baixa, para não atrapalhar a velejada. Queria que o motor somente me desse controle, sem diminuir a velocidade. A velocidade não se alterou, e a diversão cresceu, já que pude brincar de surfar as marolas, calculando quando devia mudar alguns graus o rumo para evitar que o veleiro batesse de frente na onda e, em vez disso, desse aquela acelerada de 0,5 nó descendo a marola. Terminada a marola, voltava ao rumo anterior e repetia o processo na próxima: um excelente exercício, que me tirou daquele “torpor” de uma velejada rápida e constante.
O motor, combinado com as velas que recebiam seus 11 nós de vento, além de evitar as batidas de proa, me levava mais rápido ao meu destino: começava a escurecer, eu estava um pouco cansado pelos esforços de um esportista de fim de semana e, já com fome, só pensava na lasanha ao forno quentinha, que eu saborearia relaxando no cockpit, sentindo o balançar do veleiro nas águas calmas da orla de Ilhabela.
Toque-Toque até o Saco da Capela
Como sempre, a motorada noturna entre Toque-Toque e o centro de Ilhabela é muito maçante, principalmente se não aparece nenhum navio para quebrar a monotonia: é só luz brilhando dos dois lados do canal, e o barulho incômodo do motor em alta rotação.
Chegando ao Saco da Capela, perto da Vila, achei um local em frente à Casa da Princesa, com calado suficiente na maré baixa (calo 2,2 metros), e joguei o ferro.
As lendas de Ilhabela apontam a antiga casa do Pouso dos Corrêa como hospedagem da princesa Isabel quando estava na região. No entanto, também se diz que a princesa Isabel nunca esteve em Ilhabela e que a princesa que dá nome à casa seria, na verdade, Nossa Senhora D’Ajuda…

Ilhabela – Saco da Capela.
Um pouco de história: a famosa Casa da Princesa, localizada na Avenida Dona Germana, 85, na entrada da Vila, foi construída em 1870 e logo vendida para um imigrante italiano chamado Francisco Fazzini, que montou no local o Hotel Bela Vista. Em 1916, a propriedade foi adquirida pelo casal Aníbal Telles Corrêa e Dona Germana. Em 1941 a casa passou por uma reforma e acabou virando casa de veraneio dos Corrêa, que costumavam frequentar a ilha e, por sua paixão e doações à vila e à igreja, são reconhecidos e respeitados até hoje. Veja o nome da avenida…
Voltando aos dias de hoje, ou melhor, àquele sábado, apesar de o mar estar convidativo, não estava a fim de nadar, mas precisava urgentemente de um banho: enquanto a lasanha aquecia no forno, tomei um banho quente e revigorante.
Montei a mesa e comi tranquilo olhando o movimento na orla e na vila. Após falar com minha esposa, que acompanhou toda a viagem por meio das fotos enviadas pelo celular, fui dormir… e acordei às 22 h, com o som de samba vindo dos bares. Tinha esquecido desse detalhe. Da próxima vez, jogo ferro em outro lugar, pois o sambão só terminou às 4 h da madrugada, quando, finalmente, ferrei no sono.
Acordar em Ilhabela
Acordar em Ilhabela faz bem à alma!
Além de o lugar ser lindo, não importa onde você jogue ferro, a água é de um verde claro transparente simplesmente espetacular. Sem contar que, para quem ainda não conseguiu suspender os vínculos com a sociedade, a sensação é de ainda fazer parte da civilização… Sem comentários a esse meu último comentário!

Café da manhã reforçado.
Quem já dormiu em um veleiro sem ar-condicionado sabe como é amanhecer com um “melado” na pele que é uma combinação de suor, calor que não vai embora e maresia… Por isso, após abrir a gaiuta, dar uma olhada no paraíso e ver que o tempo estava maravilhoso, vesti uma sunga e saí ao deck para, depois de baixar a escada, me jogar naquela água cristalina. Que sensação divina! O frescor da água imediatamente limpa sua pele e sua alma!
Após circundar o veleiro confirmando que tudo estava bem e enrolar mais um tempo antes de sair da água, a fome bateu, e finalmente saí da água para tomar meu café da manhã. Desta vez, não tinha café, mas chá preto… e ovos… e uma fatia de hambúrguer de picanha… e três bisnaguinhas com queijo fundido… e, saudável, um delicioso pêssego gelado, que passara a noite na geladeira.
Após o café, levantei ferro e dei uma volta entre os veleiros apoitados na baía do Saco da Capela. Não sei você, mas eu adoro estar e passear em volta de veleiros… principalmente quando estou no meu!

Navegando entre os veleiros apoitados no Saco da Capela.

Água verde cristalina.
Retorno ao Guarujá
Então, rumei ao Iate Clube de Ilhabela para abastecer de Diesel e, então, comecei meu retorno ao Guarujá, seguindo a costa pelo lado de Ilhabela.
Eram umas 9 h da manhã e eu não tinha pressa em chegar. Então, mantendo uma velocidade que dá para curtir e observar tudo na costa, rumei em direção à Ponta da Sela, no extremo sul da ilha.
Minha ideia era costear até a Praia da Feiticeira e, então, cruzar o canal rumo a Toque-Toque, passando por fora da ilha e, dependendo do vento, definir minha derroca.
Dessa maneira, passei novamente pelo Saco da Capela e então percorri a Ponta do Pequeá, Engenho D´água, Itaquanduba, Itaguaçu, Perequê, passei pela balsa, Ilha das Cabras, Pedras Miúdas, Oscas, Praia Brava, Portinho e, finalmente, a Feiticeira, com sua casa do engenho que é o sonho de consumo da minha esposa. Casa colonial, pé na areia e com um coqueiral…

Nada como o piloto-automático.

Engenho na Praia da Feiticeira.
A Praia da Feiticeira tem somente 250 metros de areia grossa, em formato de tombo, e possui duas cachoeiras que desaguam entre a praia e a costeira ao sul.
Antigamente, o local abrigava um engenho, na Fazenda São Matias. O engenho é composto por um casarão em estilo colonial que ocupa toda a ponta esquerda da praia. Lindo! Do outro lado, construíram um casarão que, na minha opinião, deveriam demolir… O acesso à praia se dá passando pela casa do engenho e por uma cachoeira artificial que deságua na praia, construída pelos antigos donos da fazenda.
Após tirar fotos da casa e mandar para minha esposa, mudei o rumo para a Ilha de Toque-Toque, na saída do canal.
Um pouco de história: a Praia da Feiticeira tem esse nome porque, segundo a lenda, uma antiga proprietária da fazenda fez fortuna com piratas contrabandistas e comandantes de navios negreiros que, após 1850, com a proibição do tráfico de escravos africanos, utilizavam a ilha como ponto preferido de entrada de escravos ilegais no Brasil. Um dia, envelhecida e temendo ser saqueada, ela teria entrado na floresta e enterrado um tesouro, com o auxílio de seus escravos. Para evitar que revelassem o segredo, teria matado a todos e voltado sozinha da mata. Chamada de feiticeira pelos pescadores locais, teria finalmente enlouquecido e desaparecido, deixando para trás o mistério de seu tesouro enterrado.



Ao passar ao largo da costa de Ilhabela, uma imensidão verde invade nossos olhos: é a exuberância da Mata Atlântica que, banhada pelo mar calmo do Canal de São Sebastião, nos dá uma sensação de atmosfera selvagem e natural – apesar da clara presença do homem.
Enquanto atravessava o canal, percebi que não havia vento, e o mar estava um “espelho”: nem marola!
Os ânimos baixaram diante da previsão da volta como uma motorada monótona… Mas só de pensar que tinha todo um dia pela frente em meu veleiro, os ânimos subiram!

Saída do canal de São Sebastião/ Ilhabela… um espelho!
Tracei uma rota entre a ponta externa da Ilha de Toque-Toque e o Farol da Pedra do Corvo – novamente, uma linha reta que passaria entre a Ilha do Moitão do Trigo, a Ilha das Couves e a Ilha dos Gatos… Acelerei para 2.500 rpm e liguei o piloto automático.

Ilha do Moitão do Trigo.: o mar continua um espelho, nada de vento!
Aproveitei o tempo para relaxar, apreciar a inebriante natureza na qual estava inserido, observar o voo dos pássaros e suas investidas no mar para pegar peixes, o céu azul ensolarado, e apreciar o conforto que um veleiro de 40 pés nos oferece.
A vida no mar passou a ser simples. Se dava vontade de andar, levantava, dava uma volta no deck. Se queria fugir um pouco do Sol, após olhar ao redor e confirmar a ausência de qualquer indício de perigo, descia e ficava dentro da cabine, aproveitando para ler um livro no iPad (não dá para ler no deck com a luminosidade do dia) ou, simplesmente, mexer em alguma pendência da eterna lista de reparos e melhorias. Quando deu fome, esquentei uma pizza e comi. Quando tinha sede, tomava um suco ou água de coco. Quando deu vontade de tirar uma soneca, novamente, procurei ao redor por sinais de perigo, coloquei meu despertador para 15 minutos e tirei uma soneca deitado no cockpit embaixo do bímini. Quando vi as bandeiras indicativas de rede de pesca, mudei o rumo para evitá-las. Arrumei tudo que no dia anterior havia tirado do lugar para velejar e, quando deu vontade de dar um mergulho, tirei a roupa, baixei a escada, peguei um cabo, e mergulhei como vim ao mundo. Foram três paradas para mergulho durante o retorno ao Guarujá: a água estava divina. Então, ao chegar à entrada do canal, com o pôr do sol na minha proa, descansado e relaxado, desliguei o piloto-automático, assumi a roda do leme e entrei no Canal de Bertioga.

Chegada a Bertioga.
Chegando à marina, fui avisado de que, como a maré vazava forte, e dado o horário da minha chegada, não haveria apoio para amarrar o veleiro na minha vaga no píer.
Por isso, pediram que amarrasse o veleiro no pontão do posto de combustível para, no dia seguinte, entre às marés, colocarem meu veleiro na vaga… perfeito! Nem o trabalho e o estresse de colocar o veleiro sozinho na vaga, com maré forte vazando, eu teria.
Então, após colocar as defensas e amarrar o veleiro ao píer, fechei tudo e fui embora…
Gozado: mal cheguei e já sentia saudades do meu fim de semana e da vida no mar…
Bons ventos!
Max Gorissen
Velejador. Escritor.
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