Considerações na manutenção de veleiros de madeira

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Perfeição no acabamento das madeiras deste recém reformado Classe Brasil.

Barreira protetora: tinta/ verniz

Se pararmos para pensar, o acabamento de tinta que damos aos veleiros de fibra de vidro é apenas um acabamento cosmético já que, o gel coat, é o que na realidade protege a estrutura de fibra de vidro.

Em veleiros de madeira, ao contrário, é a tinta/verniz de acabamento que tem como objetivo fazer o papel de barreira protetora.

Por este motivo, os veleiros de madeira dependem de um sistema de pintura de várias camadas de tinta/verniz para evitar com que a água ingresse na madeira, o que, se ocorrer, eventualmente levará a madeira a apodrecer ou, no caso do compensado naval, a delaminar.

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A madeira requer manutenção constante determinada por inspeções regulares… neste caso, o verniz antigo havia descascado. Repare do lado direito da madeira lixada que ainda existem partes com verniz antigo por ser lixado. Por causa de batidas, o verniz antigo encontra-se “afundado” em sulcos na madeira. Devemos tomar cuidado nestes casos para não lixarmos em excesso e danificarmos ainda mais a madeira.

Retoques constantes

A manutenção da tinta/verniz de um veleiro de madeira não deveria ser um trabalho tão demorado ou complicado, contudo, o é, simplesmente, por falta de atenção do proprietário do veleiro.

O maior causador de problemas na madeira é a água doce que nela penetra. Solucione a entrada de água na madeira e terá solucionado uns 80% dos possíveis problemas.

Para isso, comece por dar à madeira a devida atenção que ela precisa para manter-se em perfeitas condições e evitar com que a água nela entre.

Isso se faz através de simples e frequentes inspeções. Inspeções constantes da pintura garantem com que qualquer problema possa ser identificado antes de que um dano maior aconteça.

É importante nessas inspeções, que podem ser feitas a qualquer momento, inclusive, enquanto se veleja, como numa troca de vela enquanto se está na proa ou, ao caçar uma escota numa catraca do cockpit, dar atenção especial às áreas em torno de peças/equipamentos, cantos e junções entre madeiras. São nestas áreas que a maior parte dos problemas tem início.

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Peças e equipamentos parafusados ao deck é o que não faltam em um veleiro. Inspeções regulares nestes pontos podem evitar problemas graves que levariam tempo para aparecer.

No restante, as mesmas considerações que se aplicam à pintura e a preparação de veleiros de fibra de vidro se aplicam à pintura dos veleiros de madeira. Por exemplo, o lixamento, a adesivagem da superfície e a preparação da superfície para a pintura são praticamente as mesmas. Contudo, diferente da fibra de vidro, na madeira, pequenas áreas com falhas na tinta/verniz ou com pontos descascados, precisam ser corrigidos o mais rápido possível para evitar que a madeira se deteriore.

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Repare que em praticamente todas as madeiras envernizadas deste veleiro existem falhas ou ausencia (descascado) de verniz… a água certamente irá se infiltrar nesta madeira. A madeira do púlpito de proa parece recém envernizada…
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Existe uma grande probabilidade da água entrar entre a união ou junção de madeiras.
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Muitas vezes, vazamentos no deck só serão percebidos tempos depois com a descoloração da madeira… repare na madeira do casco na junção com a antepara. Neste caso, a água se infiltrou na madeira por baixo pois o verniz de cima parece perfeito. A água foi apodrecendo a madeira, pouco-a-pouco, de dentro para fora.

 

Para corrigir pequenas falhas, use uma espátula para remover a tinta/verniz que esteja solta ou com bolhas, e lixe a área, incluindo parte do seu entorno, para integrar estas áreas às áreas onde uma nova camada de tinta/verniz será aplicada. Um primer de secagem rápida, seguido de uma ou duas camadas de tinta/verniz, pode ser um reparo adequado e temporário para evitar com que a água entre na madeira até que esta área possa ser pintada de maneira adequada e permanente.

É fundamental realizar estes retoques antes das épocas das chuvas, ja que, a água doce da chuva, nessa época, demora a secar e se espalha dentro da madeira com maior facilidade, formando veios e encharcando áreas, quando encontra um local já ensopado.

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A água encontra locais para “empoçar” com facilidade um em veleiro de madeira. Na época das chuvas, a madeira fica constantemente molhada com água doce. Se a madeira não estiver bem vedada com uma tinta/verniz, com certeza, esta água irá encontrar algum ponto para entrar e encharcar a madeira o que, com o tempo, pode apodrece-la.

No caso de veleiros que se encontram em áreas onde o inverno é muito frio e que água pode congelar, realizar retoques na tinta/verniz é ainda mais importante já que, neste caso, a água acumulada dentro da madeira congela e expande, fazendo com que a madeira sofra também uma expansão na sua massa, podendo assim, causar uma delaminação da madeira, bolhas na pintura/verniz e, até, abrir/ quebrar a madeira.

Lixando o casco

Se a maioria da tinta/verniz ainda está bem aderida ao casco, comece removendo qualquer tinta/verniz que esteja solto, com bolhas ou descascando, usando uma espátula.

Então, o casco pode ser totalmente lixado utilizando uma lixa de granulação média. Realizar esta operação irá criar uma base que permite com que uma nova camada de tinta/verniz tenha melhor aderência à tinta antiga, além de fazer com que a tinta/verniz existente fique com uma superfície mais lisa e homogênea.

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Repare na popa deste veleiro… diversos problemas podem ser identificados: 1) na superfície do casco no primeiro plano (ao longo da linha azul) diversas delaminações e bolhas aparecem junto com partes da tinta já descolada da madeira. 2) Manchas variadas no verniz demonstram de que este não existe mais em determinados lugares e/ou está muito fino em outros, o que permite encharcar a madeira. 3) No topo da foto do lado esquerdo do cunho, você pode ver que alguma “peça” foi removida deixando a madeira sem verniz exposta. 4) Ao lado da base do mastro de mezena se vê claramente a água empoçada que não tem como sair de lá. 5) A madeira Teca do deck parece em boas condições precisando apenas de uma boa lavada com água salgada do mar.

Se a superfície com a tinta/verniz existente está muito irregular ou desigual nas suas alturas, por exemplo, com marcas profundas de pincel ou de diferentes camadas de tinta/verniz, facilita o trabalho lixar com uma lixa de granulação maior, talvez uma 150 ou uma 120.

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Além da água, que pode penetrar na madeira através da tinta/verniz, outros podem fazer o mesmo… como os gusanos que invadiram este casco de madeira… Repare nas diferentes camadas de primer e tinta acumuladas durante os anos… este casco, além do tratamento dos gusanos, irá precisar de uma boa lixada! (ou outro, como, por exemplo, um processo químico ou a fogo).

Considerações para os decks de madeira

Apesar de que os proprietários de veleiros de madeira naturalmente deem maior atenção à integridade do casco, o deck de madeira tem maior chances de desenvolver problemas e, portanto, de demandar inspeções frequentes.

A grande maioria dos problemas em decks de madeira são causados por água da chuva ou água doce usada nas lavagens, que não contém as propriedades conservadoras da água salgada do mar, fazendo com que a madeira apodreça com mais facilidade.

Além disso, os decks normalmente possuem locais onde a água pode empoçar e, se a tinta/verniz nessas áreas não estiver em perfeitas condições, nesses locais, a água doce irá lentamente encontrar uma maneira de entrar na madeira.

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Por um motivo óbvio de falta por onde escoar, a água fica empoçada entre os dois pilares da estrutura desta roda de leme. Apesar de que a madeira Teca neste deck está acinzentada, ela está boa, com a exceção da madeira na área entre os pilares em que se vê a madeira preta… ali, ela apodreceu e provocou vazamento de água para dentro do veleiro.
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Este é o dano causado pela água que entrou através da Teca podre vista entre os pilares da roda do leme na foto anterior. Toda a madeira apodreceu. Parece farelo. A mangueira preta não tem nada a ver com a água entrando no veleiro… ela é apenas a mangueira de saída da água que entra no involucro inferior da roda do leme.
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A solução encontrada para remediar o problema “temporariamente” até o dia em que decida trocar toda a madeira Teca do deck por uma nova, foi remover um pedaço onde a água acumulava e colocar uma madeira interiça de Teca mais alta. Para isso, tive de remover a Teca antiga nesse local.
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Uma vez retirada toda a madeira Teca podre no formato da nova madeira, o local foi aspirado e limpo com desengraxantes para ajudar na aderência do Sikaflex. Toda a área ao redor foi protegida com fita pois, como sabem, ao aplicar Sikaflex, nem sempre se consegue a precisão desejada e ele vai parar onde não deve.
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Substituí as Tecas em tiras dispostas na vertical por uma única peça de madeira Teca, do dobro da altura, disposta na horizontal. Para vedar, na parte de baixo e da frente utilizei Sikaflex preto e, em volta da peça da roda do leme, como era branca, utilizei Sikaflex branco. Nesse local, a água não empossa mais.
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Posteriormente, a madeira Teca foi lavada com água do mar e uma fina camada removida com uma lixa bem fina. OBS: Cuidado com produtos vendidos no mercado que “dizem” lavar ou tratar a Teca… a Teca só precisa de lavagens regulares com uma fina esponja ou pano suave passado no sentido da sua granulação (nunca contra), usando sempre um sabão com PH neutro e, de preferência, água do mar.

 

Paro por aqui… continuarei este assunto com mais detalhes em um próximo artigo.

Bons ventos!

 

Max Gorissen

Editor SailBrasil.com.br e SailBrasil Magazine


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