IoT – Os Navios de carga autônomos, sua evolução e consequências.

 

Por:  Max Gorissen

Autonomous Rolls-Roye
Modelo de navio autônomo Rolls-Royce – Foto: Rolls-Royce

 

Entre as várias vertentes e áreas de aplicação do IoT – Internet of Things, gostaria de me limitar neste artigo ao mercado marítimo e, dentro deste, à navegação autônoma de navios de carga (não de passageiros). São os chamados “navios autônomos”.

Hoje, por causa da infraestrutura instalada (ou ainda não instalada), existe um erro na utilização da palavra autônomo, onde, por definição (usando a parte “técnica” da definição que interessa), autônomo pressupõe que “o funcionamento do sistema ou do dispositivo opere sem ajuda de ou sem estar conectado a outro sistema ou dispositivo. É independente. ”

Para fazer um paralelo, no caso dos automóveis autônomos, além dos satélites, estão montando toda uma infraestrutura em ruas e estradas para possibilitar que o automóvel seja, conforme a definição, autónomo, contudo, o mesmo não se pode dizer ainda dos navios, do mar e dos portos.

Por este motivo, quando me referir a um “navio autônomo” neste artigo, usarei sempre as aspas, já que, com a tecnologia atual, o navio não pode ainda, segundo a definição, ser considerado autônomo por ser comandado “remotamente” por uma equipe em terra.

Existem em andamento alguns projetos em torno de “navios autônomos”, ou com gerenciamento remoto, na Dinamarca, Noruega e na Finlândia e, com base nos resultados destes projetos, acreditasse, que os navios não tripulados estarão disponíveis em um futuro muito próximo.

Talvez, mais próximo do que se imagina já que, nesta semana, mais um importante passo foi dado no longo caminho para se ter embarcações totalmente autônomas; A Rolls-Royce e o operador global de reboque Svitzer, demonstraram com sucesso, no porto de Copenhague, o que eles acreditam ser o primeiro navio comercial operado remotamente, o rebocador de 28 metros de nome Svitzer Hermod.

 

rolls
ROC – Remote Operating Center – Foto: Rolls-Royce

 

O Svitzer Hermod, uma embarcação com design de Robert Allan, foi construído no estaleiro Sanmar Yard na Turquia em 2016. O rebocador está equipado com um sistema Rolls-Royce Dynamic Positioning System, que é a conexão central para todos sistemas de controle remotos e para toda uma gama de sensores que combinam diferentes inputs de informação, utilizando um software avançado que fornece ao capitão uma visão virtual ampliada para que este possa entender o que ocorre na embarcação e no seu entorno. As informações são transmitidas com segurança a um Centro de Operações Remoto (ROC – Remote Operating Center), de onde o capitão controla a embarcação. Veja matéria no MaritimeJournal.com

Contudo, embora a navegação remota possa ser algo viável, existem várias questões que precisam ser discutidas e solucionadas. São questões relacionadas a operação e manutenção de equipamentos e máquinas essenciais para a correta operação da embarcação e, principalmente, relacionadas à legislação.

Por exemplo, em viagens curtas, manutenções podem ser realizadas ao se atracar o navio em algum porto ou uma equipe pode ser enviada ao navio para executar manutenções enquanto este estiver no mar. Longe de terra, com a tecnologia atual, uma pequena equipe a bordo seria ainda necessária para realizar consertos e manutenções conforme estas sejam necessárias…, mas, neste caso, o navio, apesar de ser autônomo, seria ainda tripulado…

É neste quesito, haver ou não pessoas a bordo, onde a legislação atual cria restrições que podem mudar todo o conceito e a concepção do que é, e de como deve ser construído um navio “autônomo”. Por este motivo, a legislação, sozinha pode inviabilizar o avanço do “navio autônomo”.

Só para exemplificar como a legislação pode inviabilizar e mudar o conceito e a concepção de um “navio autônomo”; pelo simples fato deste não ser tripulado, o mesmo não teria de cumprir com legislação/regras de tratamento de esgoto, não precisa de banheiros e nem de cabines para a tripulação, não é obrigado a transportar equipamentos de catering (para preparação de comida), não precisa levar a bordo comida, nem médicos e nem mesmo salva-vidas. O navio não precisaria de passadiços por onde as pessoas teriam de andar. Nem de uma sala de comando. Nem de uma série de coisas necessárias para que seres humanos possam utilizar o navio.

Por sua concepção, um “navio autônomo”, não seria capaz de oferecer assistência em uma emergência e não seria capaz de recuperar pessoas (náufragos ou pessoas em apuros) no mar como o fazem os navios de hoje. Além disso, um navio não tripulado, poderia se tornar um meio fácil para que passageiros clandestinos, possam realizar viagens ilegais.

Por estes e outros motivos, a longo prazo, para que “navios autônomos” se tornem uma realidade, tudo dependerá da atitude assumida pelas diversas Marinhas em cada um dos países costeiros, pelos governos destes países, pelos portos e, principalmente, pela vontade de proprietários individuais ou de companhias marítimas em investir em tais embarcações.

Mesmo que todos os argumentos acima sejam solucionados, hoje, investir em “navios autônomos”, possivelmente, atrairá somente um número muito pequeno de proprietários ou de companhias marítimas já que, pensando em termos econômicos e de revenda, é fácil assumir de que esses proprietários terão dificuldade em revender esses novos navios, já que, provavelmente, a primeira geração de “navios autônomos”, quase não terá valor de revenda quando a segunda geração seja liberada.

É como acontece hoje com os eletroeletrônicos, contudo, para o dono de um navio, este não pode ser comparado a um eletroeletrônico onde “early adopters” estão dispostos a investir alguns dólares a mais para ter a possiblidade de testar uma nova tecnologia e, se não gostar, apenas a descarta. No caso de um “navio autônomo”, atuar como “early adopter”, vai custar alguns muitos milhares de dólares a mais e, o seu descarte, ao fim da sua vida útil, vai custar mais ainda…
E como fica o lado humano nos “navios autônomos”, ou melhor, a tripulação?

Quem acompanha o mundo das “coisas” autônomas deve se lembrar de que, em 2004, os “experts” foram categóricos em afirmar de que, carros sem motoristas (autônomos), não poderiam executar uma curva à esquerda, contra o tráfego que se aproximava, porque muitos fatores estavam envolvidos nessa decisão e, mesmo com toda a tecnologia, um automóvel, sozinho, não poderia definir a ação correta a ser adotada.

Bom, seis anos depois, o Google provou que poderia criar carros totalmente autônomos e, com isso, deu início a uma nova discussão que trazia à tona a ameaça e a subsistência de milhões de motoristas de caminhão e de táxi.

O “navio autônomo” segue a mesma linha de discussão.

Isso porque, no mundo desenvolvido em que vivemos, o emprego é visto como um direito e uma necessidade fundamental.

A pergunta que permeia esta discussão é: E se, num futuro não muito distante, começarmos a ter todo tipo de “coisas” autônomas, vamos precisar das pessoas? Teremos empregos suficientes para todas as pessoas do mundo? O que acontecerá com a mão de obra que hoje está empregada nas funções que serão automatizadas? E as novas gerações, meu filho, seu filho, como ficam? … essas, entre muitas outras, são hoje as perguntas que a automação e o autônomo trouxeram à tona.

Na busca por respostas, os “experts” vêm discutindo há vários anos o que acontecerá quando os robôs e a inteligência artificial se tornarem cada vez mais capazes de realizar tarefas humanas. O IoT é a primeira etapa nesta discussão onde, basicamente, máquinas (things – coisas), passam, através da Internet, a “conversar” entre elas e a “resolver” sozinhas (autônoma) uma série de tarefas realizadas hoje por pessoas.

 

radioshackad
Página de jornal do ano de 1991 com propaganda da Radio Shack – Foto: Steve Cichon

 

Apenas para dar um exemplo, outro dia li um post escrito por Steve Cichon no Huffpost onde ele apresenta uma página de jornal com uma propaganda dos produtos da empresa Radio Shack no ano 1991, e o título do post dizia: “Tudo nesta página de propaganda do ano de 1991 da Radio Shack, você pode fazer hoje com seu celular” (Everything From This 1991 Radio Shack Ad You Can Now Do With Your Phone).

A grande sacada desta matéria foi mostrar como a evolução da tecnologia conseguiu, em apenas 2 décadas, usando um punhado de plástico, vidro, processadores e massa cerebral, desenvolver um celular tão pequeno que, hoje, você carrega no bolso da sua calça e que substitui um monte de equipamentos grandes, pesados, desengonçados e, muitas vezes, de má qualidade, que não conversavam entre si.

Voltando às pessoas e a discussão do emprego, é fato que as mudanças tecnológicas ocorridas nestes últimos anos, ao contrário do que se imaginava, foram responsáveis pela criação de mais empregos do que os empregos que foram eliminados. Não precisa muita pesquisa para comprovar isto. É só comparar o crescimento da população com os níveis de emprego; tirando o desemprego causado por problemas políticos/ econômicos em países subdesenvolvidos, como o Brasil, a grande maioria da população, mesmo com a explosão populacional, está empregada.

Desta maneira, é bem provável que os empregados daquelas fábricas de 1991 devem ter se realocado em outras empresas, talvez, até mesmo, nas empresas fabricantes de celulares que substituíram os produtos que outrora produziam. Muitos, devem ter ido trabalhar em outras empresas de manufatura, ou de tecnologia e, outros ainda, se realocaram no setor que mais se desenvolveu desde então; o setor de serviços.

Da mesma maneira que aconteceu em 1991, o mundo passa hoje por uma nova mudança na qual se estima que, quase a metade de todos os empregos nos EUA podem estar em risco nas próximas décadas, com os empregos de menor remuneração, entre os mais vulneráveis à serem extintos (pesquisa realizada pela Universidade de Oxford – The future of employment: How susceptible are Jobs to computerisation?). Não vou nem tentar imaginar e extrapolar o impacto desta estimativa para a população do Brasil onde, a grande maioria, possui baixa escolaridade e baixa remuneração…

O que dá suporte a esta estimativa é o fato de que, os novos empregos e os empregos do futuro, são e serão diferentes. Está claro de que, avanços na tecnologia, buscam uma nova característica, uma nova habilidade e um novo conhecimento nas pessoas que emprega, onde, a força e o trabalho manual são substituídos pelo cérebro e pelo trabalho intelectual.

Contudo, mesmo que novas tecnologias venham a desenvolver novos produtos automatizados ou autônomos, que eventualmente venham a substituir os empregos de hoje, como no caso da tripulação dos “navios autônomos”, é certo que a grande maioria da força de trabalho mundial irá se adaptar e se realocar, provavelmente após um avanço no modelo de ensino (nossas escolas e o modelo de ensino estão obsoletos) e após uma reciclagem das pessoas hoje empregadas, que assumirão novas atribuições nesse novo mercado de trabalho… Mas isso é assunto para outro artigo…

De qualquer maneira, a introdução de “navios autônomos” é hoje uma incógnita, apesar de tecnologicamente viável, que depende fundamentalmente do investimento de companhias marítimas ou de investidores individuais que decidam se aventurar e que consigam encontrar um ROI (Return On Investment) para mudar uma indústria que continua a mesma desde os anos 1940.

Contudo, não gostaria de finalizar este artigo sem deixar algo para se pensar… e se não forem as atuais companhias marítimas e os atuais investidores individuais que sejam os responsáveis pelo investimento ou a mudança necessária para que os “navios autônomos” virem realidade?

E se forem empresas como Amazon.com, AliBaba.com, E-Bay.com, Google, entre outras que, para terem controle sobre o transporte dos produtos vendidos ou apenas controle sobre a distribuição, venham a adquirir “navios autônomos” para melhorar a eficiência nas suas entregas? … lembre-se, estas empresas já começaram testes com drones… quem disse que um “navio autônomo” não é hoje apenas um drone que navega pelo mar em vez de voar pelos ares… como dizem os Ingleses: “Food for thought” … e matéria a ser explorada em outro artigo…

Max Gorissen

 

Todos os nomes de empresas utilizados neste artigo pertencem e tem Copyright das próprias empresas e somente foram utilizados neste de forma ilustrativa. As opiniões e ideias descritas neste artigo não representam necessariamente as opiniões e ideias destas empresas.


Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s