Moitões “Vintage”… troco por novos?

Estava em dúvida… troco os moitões do meu veleiro por novos ou limpo, lubrifico e mantenho os antigos do ano de 1987 que vieram no meu veleiro?

Acredito que esta pergunta passe pela cabeça de muitos velejadores, especialmente hoje em dia com todas as opções disponíveis no mercado e os avanços tecnológicos ocorridos, neste caso, nos últimos 30 anos.

Alguns dos muitos moitões da marca Harken do ano 1987 presentes no meu veleiro… estes são usados na popa, em ambos bordos, para as escotas do balão.

No caso do meu veleiro, todos os moitões são da marca Harken e, diferente dos modernos moitões que são rebitados, estes possuem parafusos passantes com porcas o que permite com que sejam desmontados… é a vantagem da engenharia que leva em conta a manutenção e não, como hoje em dia, a substituição por novos… como são dos anos 1980, poderíamos chamar de “Harken Vintage”… 😊

Os moitões são todos usinados em alumínio (corpo) e com roldana também usinada em alumínio com um mancal em aço inox… mancal é meio exagerado… é mais um tubo de aço inox cortado pelo qual passa o parafuso do eixo do que um mancal… Os parafusos de fixação do conjunto são passantes, com rosca somente na ponta, com porcas parlock tipo castelo e arruelas, tudo em aço inox 316, adequando para o meio náutico.

As esferas são de algum composto plástico branco bastante resistente.

Como qualquer componente náutico, este requer manutenção constante e, se a manutenção não é realizada, as peças que compõe o componente tendem a passar por diversas reações que vão desde o atrito, carga pesada, batidas e até a eletrólise (processo de oxidação ocorre quando os elétrons emergem pelo ânodo e chegam ao cátodo em uma solução aquosa) com consequências das mais variadas. Além da falta de manutenção frequente, muitas vezes, danos também podem ser causados em decorrência de um uso ou de uma instalação inadequada.

No exemplo dos meus moitões, aparentemente, existe um pouco de tudo descrito acima, contudo, a extensão dos danos não foi suficiente para condenar os moitões. Acredito que a qualidade dos materiais, projeto e montagem dos moitões também foram fundamentais para seu bom estado geral após 30 anos de uso em um veleiro de regatas.

Descrevo nas fotos abaixo o procedimento, a desmontagem, a montagem e os problemas encontrados.

Os moitões vistos de lado.
Em 2 moitões do pé do mastro, ao todo são 6 moitões Harken e outros dois Schaeffer, somente dois parafusos estavam totalmente enferrujados a ponto de quebrarem.
A maioria dos parafusos dos moitões do pé do mastro estavam “soldados” por uma massa de oxidação galvânica que me deram muito trabalho para soltar. É um processo lento, de cuidado e paciência se tem por intenção manter o parafuso intacto… no meu caso, perdi dois parafusos pois, sem paciência, martelei até amassar a ponta.
Totalmente desmontados e limpos, mostro nesta foto todos os componentes de dois moitões. Repare no corpo dos moitões, arranhados e desgaste na superfície do alumínio. As causas são diversas, as mais comuns, erro de instalação já que a roldana está claramente trabalhando torta, provavelmente, por causa de algum cabo desalinhado em relação à entrada e a saída no moitão. Também vemos no centro um desgaste excessivo, sempre em um dos lados do corpo do moitão, o que indica a falta de manutenção tendo sido deixados por um período muito grande com altas cargas na mesma posição.
Uma vez limpo, recoloquei as esferas. Se reparar bem na foto, tem duas esferas na ranhura da madeira, um pouco acima do centro da foto, uma está com um lado gasto, ficou com um platô e outra está ovalada. Isto ocorreu porque em um dos moitões, faltavam algumas esferas o que deve ter feito com que estas esferas, em determinado momento, assumiram toda a força e se danificaram.
Ao montar os moitões novamente. Tive de tomar uma decisão. Inverto o corpo de alumínio para o lado de fora, onde não existe desgaste do centro (mancal) ou mantenho como era, mesmo com um desgaste que pode gerar folga? Avaliando o material e partindo do princípio de que, sob minha propriedade, farei manutenções anuais, decidi, para o primeiro ano, manter do lado original e reavaliar na próxima manutenção. Também, sabendo do problema de instalação que me deparei quando comprei o veleiro, vou instalar de tal maneira para que não aconteça mais a pressão desigual em um lado do corpo do moitão reduzindo o desgaste de material por atrito. Além disso, acredito que a causa deste desgaste foi a oxidação galvânica que “travou” o parafuso no tubo de alumínio fazendo com que este último, “arranhasse” o alumínio desgastando-o.
Mais fácil colocar as esferas em um plano reto e então inserir o parafuso junto com o corpo travando antes de virar.
Lado ainda sem as esferas. O lado oposto, já com as esferas, fica pressionado entre o corpo e a roldana para que as esferas não caiam.
Antes de colocar as esferas, finalizei a montagem dos outros componentes… se fizer ao contrário, colocar as esferas primeiro, vai com certeza passar por um aperto a cada movimento pois as esferas irão sair do trilho e cair….
Tudo pronto para montagem final.
Arruelas e porcas…
Moitão montado…. limpo e a roldana rodando livremente. As marcas do tempo dão o “charme” vintage aos moitões.
Detalhe da engenharia dos anos 80. Simples e funcional… com a instalação e manutenção adequadas, vão durar para sempre!
Modelo de moitão usado no pé do mastro e no topo do mastro.
Esta imagem mostra o motivo do desgaste interno no corpo e na roldana do moitão. Repare que o último moitão da direita (terceiro do centro para a direita) está com o “ângulo” de entrada e saída da adriça errado o que irá causar desgastes desnecessários e pode até, dependendo da pressão, entortar ou quebrar o alumínio. Na nova instalação, isto terá de ser corrigido.
Repare o desgaste no corpo do moitão e na roldana causados pelo atrito da adriça no moitão que foi instalado em um ângulo errado.
Nesta foto fica claro que a adriça está saindo em um ângulo errado do moitão e, provavelmente, além de forçar a roldana desigualmente, também deve estar encostando na superfície do corpo interno do alumínio desgastando-o.
Estes são os moitões do topo do mastro onde passam as adriças do balão (duas). Reparem o estado em que se encontram já que, por algum erro de instalação, o corpo fica em constante atrito com a estrutura do enrolador da genoa… o ideal seria baixar o mastro para realizar um trabalho de desmonte e manutenção geral, contudo, no momento, terei de fazer do jeito difícil… subir no mastro, retirar os moitões, limpar, subir no mastro e instalar tudo de novo… para quem gosta de mexer com veleiros como eu, será um prazer. 🙂
Este moitão demonstra um claro desgaste onde provavelmente bate no mastro quando a adriça fica solta… repare umas marquinas no mastro. Contudo, a grande razão para o desgaste do moitão é o constante atrito com o aço inox do enrolador da genoa que tirou toda a tinta eletrostática da superfície do moitão.
Alguém trocou uma das porcas parlock por outra maior no moitão da esquerda… grandes chances de soltar algum dia. Veja também nesta foto um problema de projeto que deverá ser solucionado… os moitões, com seus parafusos e porcas, encostam e batem na estrutura do enrolador da genoa… Talvez seja melhor trocar estes moitões por moitões mais modernos que não tenham saliências aparentes (como as cabeças dos parafusos e porcas) e pensar na instalação de alguma borracha em volta do suporte do enrolador para amortecer batidas…
Outro problema que já solucionei e que pode ser visto nesta foto tirada no dia em que tomei posse do veleiro. Do lado esquerdo da foto (boreste), existe um organizador de cabos pelo qual está passando a adriça amarela da mestra… do lado direito da foto (bombordo), não existe o organizador. Isso quer dizer que, partindo do princípio de que todos os stoppers (dá para ver os stoppers em frente às catracas da cabine no topo da foto) estão instalados paralelos à cabine, teremos os cabos forçando a saída nos moitões no pé de mastro, em um ângulo não desejado, o que irá forçar o corpo dos moitões de maneira inadequada. A solução foi instalar outro passa cabo do lado de bombordo.

Com base no desmonte, limpeza e avaliação de cada um dos moitões, decidi manter os moitões do pé do mastro já que acredito de que estes, ainda se encontram em boas condições podendo, com a adequada instalação e com uma manutenção regular, continuar funcionando sem problemas por muitos anos…

Esta decisão não leva em conta somente a condição dos moitões. Leva em conta outras considerações como, a facilidade de visualização e avaliação da condição destes moitões (estão no pé do mastro), a qualidade encontrada nos componentes (melhores do que muitos da atualidade), a baixa probabilidade de problema já que o esforço acontece no mancal de alumínio que, pelo design, é muito resistente e, por último mas não menos importante, por causa do preço exorbitante de novos moitões.

Hoje em dia, muitas empresas de componentes para a náutica são mais empresas de marketing do que indústrias e tentarão convencê-lo de todas as maneiras possíveis de que você precisa, a cada ano, substituir os componentes do seu veleiro… não caia nessa conversa.

Também não caia na conversa do dono de outro veleiro que “já caiu na conversa” do marqueteiro e trocou os moitões (ou outro componente) pelos novíssimos “XYZ-Ultra-Super-Duper”… avalie você mesmo, através de inspeção visual e da manutenção dos seus componentes, se é realmente necessário troca-los.

Lembre-se: ter é manter, então, se quiser que seus componentes durem, faça uma programação anual de manutenção e seus componentes durarão “para sempre”.

A seguir, dou outro exemplo, neste caso de uma patesca que encontrei no fundo do paiol do ferro/ancora (embaixo do cabo e da corrente). De início, pensei, pelo estado em que se encontrava e, principalmente por causa da roldana que não se movia, de que tinha nas mãos duas patescas que serviriam apenas para decorar uma prateleira ou para doar para um museu… erro meu!

Desmontei e identifiquei que o problema da patesca, além da estética, era excesso de “graxa e sujeira” nas esferas… quem “engraxou”, não sabe nada de manutenção de moitões e patescas… de qualquer maneira, como você poderá perceber pelas fotos abaixo, após tudo limpo, ficaram perfeitas.

Patescas dos anos 80 fabricadas na Argentina pela CSABA HNOS. Design simples e funcional. Estavam no fundo do paiol da ancora todas sujas e emperradas.
Várias partes limpas… falta a roldana que ainda está cheia de graxa e sujeira.
Fica claro nesta foto o motivo da roldana não girar… o acúmulo de graxa e de sujeira emperrou e impediu as esferas de girarem… são esferas do tipo agulha.
Uma patesca desmontada e limpa mostrando todos os seus componentes e a outra, a esquerda, montada. Veja no topo da foto ao centro as esferas tipo agulha enfileiradas…
As duas patescas depois de limpas… ainda tem pontos de ferrugem e falta de cromo em alguns lugares, contudo, no geral, sua aparência é agradável se pensarmos que é um produto que tem mais de 30 anos… e funciona perfeitamente!

Importante relembrar de que, no caso do meu veleiro, os moitões e as patescas não são rebitados e sim possuem parafusos e porcas que permitem o seu desmonte, limpeza, manutenção e montagem. Muitos dos moitões e patescas modernos não permitem que sejam desmontados (modelo de consumo moderno: feitos para serem usados e trocados regularmente por novos, mais modernos, mas que fazem exatamente o mesmo que os anteriores!)

Espero que tenham aproveitado e que este artigo os ajude a tomar coragem para realizar a manutenção que estão enrolando para fazer… seus componentes e seu bolso agradecem!

Bons ventos!

 

Max Gorissen

Editor e velejador.

Veleiro Gaia 1 – FyC 40 – 1987

 


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