Passeio pelo Porto de Santos até o Forte de Itapema

Forte de Itapema – Vicente de Carvalho – Guarujá – SP

No dia 18 de fevereiro de 2017, soltei as amarras na marina para realizar um passeio com minha esposa e meu filho pelo Porto de Santos até o Forte de Itapema.

Apenas para compreender a dimensão e a importância do Porto de Santos, vou discorrer um pouco sobre sua história.

Antes da sua inauguração, o então “Porto de Santos” era formado apenas por velhos trapiches e pontes fincados em terrenos lodosos. A inauguração do novo Porto de Santos, tem como marco oficial o dia 2 de fevereiro de 1892 quando, a então Companhia Docas de Santos (CDS), entregou os primeiros 260 m de cais, na área que até hoje é chamada de “Valongo”. Foi nesse dia que, para comemorar a inauguração, atracou no novo e moderno cais o vapor “Nasmith”, de bandeira inglesa.

Na virada após a balsa Santos-Guarujá para quem vem do mar, tem começo o Porto de Santos.

Com a inauguração, os velhos trapiches e pontes fincados em terrenos lodosos foram sendo substituídos por aterros e muralhas de pedra e por uma nova via férrea de bitola de 1,60 m ao longo dos novos armazéns para guarda de mercadorias.

Braz Cubas, teve a ideia de transferir o porto da baía de Santos para o seu interior, em águas protegidas, inclusive do ataque de piratas, saqueadores regulares do povoado.

Para o novo local, foi escolhido o sítio denominado Enguaguaçu (Hoje reconhecido como o Centro Histórico de Santos), no acesso do canal de Bertioga. Não demorou muito para se formar um povoado, que se iniciou com a construção de uma capela e de um hospital cujas obras se concluíram em 1543. O hospital recebeu o nome de Casa da Misericórdia de Todos os Santos e, poucos anos depois, em 1546, o pequeno povoado, foi elevado à condição de Vila do Porto de Santos.

Gruas, de todos os tipos, modelos e anos…

Por mais de três séculos e meio, o Porto de Santos, embora tivesse crescido, manteve-se em padrões estáveis, com o mínimo de mecanização e muita exigência de trabalho físico. Além disso, as condições de higiene e salubridade do porto e da cidade resultaram altamente comprometidas, propiciando o aparecimento de doenças de caráter epidêmico.

O início da operação, em 1867, da São Paulo Railway, ligando, por via ferroviária, a região da Baixada Santista ao Planalto, envolvendo o estuário, melhorou substancialmente o sistema de transportes, com estímulo ao comércio e ao desenvolvimento da cidade e do Estado de São Paulo.

Cais dos navios de cruzeiro e turismo… coitados dos turistas que vieram ver as belezas do Brasil e tem de ficar nos seus camarotes avarandados de frente para as comunidades de Vicente de Carvalho, uma das regiões mais feias e perigosas do Guarujá.
A bela vista que se tem dos navios de cruzeiro… comunidades avançando no canal sobre trapiches…

A cultura do café estendia-se, na ocasião, por todo o Planalto Paulista, atingindo até algumas áreas da Baixada Santista, o que pressionava as autoridades para a necessidade de ampliação e modernização das instalações portuárias. Afinal, o café poderia ser exportado em maior escala e rapidez.

Em 12 de julho de 1888, pelo Decreto nº 9.979, após concorrência pública, o grupo liderado por Cândido Gaffrée e Eduardo Guinle foi autorizado a construir e explorar, por 39 anos, depois ampliado para 90 anos, o Porto de Santos, com base em projeto do engenheiro Sabóia e Silva. Com o objetivo de construir o porto, os concessionários constituíram a empresa Gaffrée, Guinle & Cia., com sede no Rio de Janeiro, mais tarde transformada em Empresa de Melhoramentos do Porto de Santos e, em seguida, em Companhia Docas de Santos.

Os navios da marinha quebram a monotonia do passeio… era dia de visita e os marinheiros estavam vestidos com seus belos e elegantes uniformes brancos.
F49 – F Rademaker é uma fragata da Classe Greenhalgh, da Marinha do Brasil sendo um dos quatro navios Classe fragatas Type 22 (Lote I) adquiridas da Marinha Real Britânica, onde era designado como HMS Battleaxe (F-89). A Fragata Rademaker leva o nome do Almirante Augusto Hamann Rademaker Grünewald (1905-1985) e é o primeiro navio a ostentar esse nome na Marinha do Brasil. O Almirante Augusto Rademaker participou ativamente de Operações Navais durante a 2ª Guerra Mundial, foi Ministro da Marinha no período de 15 de março de 1967 a 30 de outubro de 1969 e integrou a junta militar que presidiu o país de 31 de agosto a 30 de outubro de 1969. Posteriormente, foi eleito vice-presidente da República na chapa encabeçada pelo general Emílio Garrastazu Médici.                                 V34 – É o primeiro exemplar da Classe e foi construído no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ) entrando em serviço no ano de 2008. O barco é uma homenagem ao herói nacional Almirante Francisco Manuel Barroso da Silva, Barão do Amazonas. Serviu na Marinha Imperial do Brasil, e teve importante papel na Batalha do Riachuelo, na Guerra do Paraguai.                             F42 – A F Constituição é uma fragata da Classe Niterói, da Marinha do Brasil. Fruto do “Programa de Renovação e Ampliação de Meios Flutuantes” da Marinha, concebido na década de 1970, que previa a construção de seis fragatas da Classe Niterói, foi a terceira a ser iniciada. Construída nos estaleiros Vosper-Tornicroft Ltd., na Inglaterra, em 1974, o seu batimento de quilha ocorreu a 13 de março. Foi lançada ao mar a 15 de abril de 1976 e incorporada à armada em 31 de março de 1978. A embarcação utiliza “Urso” como lema.

Inaugurado em 1892, o porto não parou de se expandir, atravessando todos os ciclos de crescimento econômico do país, aparecimento e desaparecimento de tipos de carga, até chegar ao período atual de amplo uso dos contêineres. Açúcar, café, laranja, algodão, adubo, carvão, trigo, sucos cítricos, soja, veículos, granéis líquidos diversos, em milhões de quilos, têm feito o cotidiano do porto, que já movimentou mais de l (um) bilhão de toneladas de cargas diversas, desde 1892, até hoje.

Em 1980, com o término do período legal de concessão da exploração do porto pela Companhia Docas de Santos, o Governo Federal criou a Companhia Docas do Estado de São Paulo-Codesp, empresa de economia mista, de capital majoritário da União.

Em 2013, o Porto de Santos superou a marca dos 114 milhões de toneladas movimentadas, antecipando em um ano a projeção base para 2014 que era a movimentação de 112,6 milhões de toneladas.

Um dos diversos estaleiros com navios enferrujados… este parece que foi adaptado como barcaça de dragagem do canal… incrível como ainda flutua… ou será que não flutua mais e é por isso que estava ali…
Ao centro da foto, em branco, terminal da estação de barcas de Vicente de Carvalho – Guarujá.
Corpo de Bombeiros com um de seus barcos (vermelho) e, a esquerda, da foto, Forte de Itapema.

Voltando ao passeio, uma vez passada as balsas e o Iate Clube de Santos, se tem a visão do tamanho que é o Porto de Santos. Logo aparecem os primeiros cais que vão se sucedendo interminavelmente somente entrecortados, do lado de Santos, por alguma outra instalação como a base dos práticos, a Receita Federal ou o cais da Marinha do Brasil.

Do lado do Guarujá, os cais são entrecortados por diversas Comunidades (Favelas) que se estendem desde a orla na praia do canal em uma sucessão de barracos sobre trapiches e tocos toscos de madeira… resquícios da falta de ações públicas e sociais… e o que parecem desmanches de cascos de aço mais do que estaleiros para dar, por fim, no terminal da estação de barcas de Vicente de Carvalho e do Posto de Bombeiros que é adjacente ao Forte de Itapema.

De qualquer maneira, o passeio, após ver alguns navios monstruosos, algumas gruas enormes, um que outro processo de descarregar containers, fica monótono, sendo quebrado apenas, pelos belos rebocadores (adoro rebocadores!), pelos navios de guerra da marinha ou pelos navios de passageiros e pela constante preocupação quando algum bote contendo algumas pessoas toma o rumo do veleiro sem saber quais são suas intenções… por sorte, todos os botes que vieram na direção do veleiro o fizeram apenas pela curiosidade de ver um veleiro passeando no canal, coisa incomum, já que, o canal, como verifiquei, não tem nenhum atrativo para um passeio e, pelo que me disseram, é muito perigoso.

Mapa do Século XVII indica posição do Forte de Itapema na Ilha de Santo Amaro, hoje, parte de Vicente de Carvalho no Guarujá – SP.

A falta de atrativos é agravado pelas águas sujas do canal, pelas poucas praias que restaram serem pequenas e imundas, pelo fedor do ar que vai e vem dependendo do cais das empresas em que se passa, pelas comunidades (favelas) por todos os lados, por uma sensação contínua de insegurança e pior, o forte, motivo do meu passeio, está totalmente abandonado e depredado, sem possibilidade de visitação.

 

FORTE DE ITAPEMA

Quadro de Benedito Calixto retratando o Forte de Itapema – SP – final do século XIX.
Forte de Itapema visto de quem vem da Baía de Santos.
Foto do Forte de Itapema visto de quem vem da Cidade Histórica de Santos. O Forte é banhado pelas águas de “Guarapiçumã”, nome dado pelos indígenas ao estuário.

O Forte do Itapema é o único monumento histórico de Vicente de Carvalho, uma das mais antigas edificações do Brasil, construído no século XVI com a finalidade defender o estuário da Vila de Santos (hoje conhecido como Centro Histórico de Santos). Em 1908, já abandonado, a Intendência Geral da Guerra entregou o forte à Delegacia da Receita Federal em Santos que mandou construir um posto de fiscalização para a Alfândega, sobre uma torre dotada de holofotes (foto antiga), para melhor iluminação do estuário e combate ao contrabando. Essas instalações foram totalmente destruídas por um incêndio em 1976 e apenas parte da torre e suas janelas são ainda vistas hoje (foto nova).

Foto atual da torre de holofotes (farol).
Foto antiga da torre de holofotes (farol) – autor desconhecido.

O imóvel foi tombado pelo estado de São Paulo em 1982. Ao final de 1999, a imprensa anunciou um projeto de restauração e revitalização das instalações do forte e seu entorno, com investimentos da ordem de R$ 500 mil, oriundos, em partes iguais, da Secretaria da Receita Federal e da Prefeitura Municipal do Guarujá. O projeto previa a utilização das instalações do forte como espaço cultural, da torre de holofotes (farol) como museu, da antiga Casa do Administrador como biblioteca, e mais a instalação de Centro de Convenções com capacidade para 130 lugares, de portaria com sistema de comunicação e recepção ao público, de sanitários públicos, de estacionamento para 30/50 veículos e de atracadouro para barcos de turismo.

Planta de 1714 mostra a disposição das instalações do Forte de Itapema – SP. Na época desta planta, ainda não havia sido construída a torre sobre o “Pinhão Rochoso”, que dá nome ao lugar. (SEC. XVIII)
Belo arco na escadaria que dá na torre de holofotes (farol).
à esquerda da foto, parte do forte, um pequeno estaleiro e garagem de manutenção de embarcações provavelmente de uso da alfândega.
Apesar do descaso e das condições, ainda se pode apreciar a belíssima arquitetura da torre de holofotes (farol) e da fortificação com suas guaritas.

Ainda no papel ao final de 2001, a Alfândega de Santos mantinha nas instalações do antigo forte um Posto de Observação para repressão ao contrabando naquele porto, informando que o Projeto de Restauração já havia sido aprovado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT), órgão do Governo do Estado de São Paulo, devendo as obras ser iniciadas em 2002, com prazo de oito meses para conclusão. No projeto estão previstas iluminação externa do monumento, bem como o tratamento paisagístico do entorno. A comunidade, no entanto, pleiteava, por seus representantes eleitos, a recuperação da área e a sua abertura ao público, uma vez que o forte é o único atrativo turístico do distrito, capaz de atrair público para o Centro Comercial.

Adjacente ao forte, este estaleiro com suas embarcações enferrujadas, “pode causar tétano só de ficar perto”… é bom garantir que esteja em dia com a antitetânica… 🙂

A poucos metros da estação das barcas de Vicente de Carvalho, a estrutura, fechada à visitação pública, compreende o edifício (torre) do farol, a Casa da Zeladoria, o posto de observação da Alfândega, o Museu de Amostras de Laboratório, oficina de estaleiro, doca seca para guarda de até oito embarcações, e outras, patrimônio avaliado em fins de 2001 em cerca de R$ 1 milhão, sob manutenção predial regular a cargo da 8ª Região Fiscal da Superintendência Regional da Receita Federal.

É uma pena ter um patrimônio tão maravilhoso e ver o descaso com que é tratado. O forte é muito bonito, com seus arcos e torres no estilo medievais e o prédio, acredito, único em sua arquitetura e função no mundo inteiro, hoje, caindo aos pedaços…

 

VILA DE SANTOS (hoje: Centro Histórico de Santos)

Sim, esta é a orla da Cidade de Santos (parte histórica)… não tem onde atracar embarcações de lazer para descer e fazer um “turismo básico”… são galpões sujos e caindo aos pedaços em uma barreira que, adicionado o entulho, é intransponível!
Prédios feios e de arquitetura antiquada complementam a sensação de decadência ao se olhar para a orla da cidade histórica. E os navios atracados, destruídos, não ajudam em nada a melhorar esta sensação.
Por trás destes galpões centenários, ainda se pode visualizar alguns prédios, casarões e igrejas de estilho arquitetônico colonial… sobreviventes de um povo sem história.
Tudo está errado nesta orla… veja o prédio à direita da igreja… quem, em sã consciência, constrói um prédio sem janelas e sem vista para o canal e mata atlântica do outro lado? Os galpões velhos (seriam antigos se estivessem pelo menos restaurados) dão uma sensação de decadência e desleixo.

Decidi seguir um pouco mais adiante para visitar a velha cidade de Santos (hoje chamada de Centro Histórico de Santos), contudo, não existe nenhum lugar para se atracar uma embarcação de lazer para fazer turismo na cidade… toda a extensão do cais está fechada por galpões, entulho e muito lixo… Lembrei imediatamente de uma frase do livro do Élio Somaschini,  O que sobra de uma viagem: histórias de um velejador em solitário, no qual ele diz que “chegar em uma cidade de veleiro é entrar pela porta da frente, é descobri-la na sua forma mais bela, é ver a cidade sorrindo e convidando”… bom, no caso da Vila e Centro Histórico de Santos, chegar de veleiro, é chegar pela porta dos fundos e, a porta, além de suja e mal cuidada, está fechada! … não tem onde atracar! … que pena… quanta falta de visão das instituições públicas… depois reclamam que não existe turismo e cultura no Brasil.

É a porta dos fundos da cidade…
Não existe lugar para se atracar e curtir o centro histórico de Santos… quer visitar? Vai por terra que por mar não tem jeito!
Retornando em direção a Baía de Santos…
Este barco de pesca, rodeado por boias de contenção para o caso de vazamento, apodrece em frente ao que acredito ter sido um prédio de escritório de estilo colonial, hoje, em ruínas…
Prédios com uma arquitetura maravilhosa, ficam escondidos por trás das tubulações e passarelas do “progresso”. Um dos tantos botes que passavam por perto do veleiro e que causavam um certo desconforto…
Comunidades (favelas) do lado de Vicente de Carvalho são uma constante…
Chegando ao final (ou início para quem vem do mar) do Porto de Santos, cais de containers na margem do Guarujá… pouco mais adiante, já estamos em frente ao ICS e das balsas Guarujá-Santos.

De qualquer maneira, depois de passear pela “porta dos fundos de Santos” e, com a certeza de que não devo mais retornar, tirei várias fotos (que espero sejam suficientes para que você não precise ir até lá também) e voltei, “cautelosamente” para a marina… chegando são e salvo!

 

Bons ventos!

 

Max Gorissen

Velejador e Editor da SailBrasil.com.br


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