Procedimento de montagem: Catraca Aldo 32

Início do processo para desmontar e limpar as catracas. Na foto, dois modelos da catraca Aldo, a Aldo 32 e a Aldo 28.
Início do processo de desmonte e limpeza das catracas. Na foto, dois modelos de catraca Aldo: a Aldo 32 (esquerda) e a Aldo 28 (a direita).

Os veleiros FyC, construídos pelo estaleiro Argentino Frers y Cibils nos anos 70 e 80, utilizavam normalmente catracas fabricadas também na Argentina, pela empresa Aldo.

As catracas fabricadas pela Aldo eram, como verão a seguir, obras de arte de engenharia, com uma qualidade que é comprovada pelo estado das peças que, mesmo após 29 anos de uso constante, em regatas e cruzeiros pelo Brasil, continuam com aparência de novas (a catraca Aldo 32 do veleiro FyC 40 usada neste artigo foi fabricada em 1987, mesmo ano do veleiro).

Este artigo é de poucas palavras já que, como não encontrei nenhum procedimento, manual ou esquema ilustrando as peças e a montagem da catraca Aldo 32, acabei realizando um ensaio fotográfico que demonstra passo-a-passo a sua montagem.

Destaco que, após limpar as peças de sua graxa antiga (trabalho desagradável e de paciência), apenas para ilustrar a montagem e manter todo o processo limpo, não adicionei às peças óleo nem uma nova graxa e sim, apenas, uma fina camada de WD40.

Após o ensaio fotográfico, desmontei a catraca novamente e, ao montá-la, apliquei graxa (pouca) nas engrenagens e óleo nos rolamentos.

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Caso as peças (corpo, tambor, rolamentos, arruelas, parafusos, etc) estejam muito sujas ou com muita graxa (muitas vezes endurecida se não foi usada a graxa adequada), use querosene (você acha no supermercado) para limpar todas as peças. Use luvas e um pincel para limpar tudo com querosene. O querosene dissolve a graxa e faz uma espuma amarelada (ou da cor da graxa) enquanto dissolve tudo. Terminada a limpeza com querosene, enxágue as peças com água corrente e, após tudo limpo e seco, durante a montagem, aplique graxa nas engrenagens e óleo nos rolamentos.

Espero que esta matéria sirva aos muitos velejadores que ainda possuem estas fantásticas catracas.

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Para desmontar as catracas Aldo 32, como o stopper é rosqueado ao eixo da catraca, você precisa dar umas marteladas no sentido anti-horário para soltar o stopper e poder retirar o tambor de alumínio da catraca.
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Retirando o tambor de alumínio junto com o stopper.
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Retirando um dos rolamentos de agulha do eixo da catraca.
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Ao retirar os dois rolamentos de agulha que possuem um separador em bronze, repare que fica uma arandela plástica na base do eixo da catraca.
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Base da catraca que fica presa ao deck e no qual o corpo das engrenagens é parafusado.
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Desmontando as catracas, percebe-se o zinabre no bronze e a sujeira acumulada com o tempo… o mar não dá trégua às peças de um veleiro.
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Os parafusos com mola que seguram a cabeça do tambor de alumínio e permitem o movimento que serve de trava aos cabos, aparentemente, não passa por uma limpeza há muito tempo.
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Início do processo de desmonte, tirando a tampa de baixo que mantém todo o sistema de engrenagens e rolamentos preso.
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A aparência das peças com sua graxa antiga não é lá das mais bonitas, contudo, uma vez limpas, vê-se que estão em perfeito estado.
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Nesta foto ficam visíveis as travas de aço inox que impedem o retorno travando nos dentes das engrenagens.
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Usei querosene para limpar as peças, contudo, para tirar a sujeira de graxa antiga, antes de lambuzar tudo em querosene, dei mais um uso ao velho Cotonete, que retirou perfeitamente a graxa dos pontos mais difíceis.
As medidas dos rolamentos externos são: 47,3 x 56 x 37,5, com 28 roletes de 4,76 mm e 4 rebites.
As medidas dos rolamentos externos são: 47,3 x 56 x 37,5, com 28 roletes de 4,76 mm e 4 rebites.
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Todas as peças limpas e na sua sequencia de instalação e montagem.
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Detalhe da sequencia de peças – montagem do eixo ao corpo de bronze da catraca.
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Detalhe da sequencia de peças – montagem dos rolamentos e engrenagens ao corpo de bronze da catraca.
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Colocando o eixo com seu rolamento dentro do corpo de bronze da catraca.
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Do outro lado, após inserir o eixo, outro rolamento é instalado para alinhar e permitir a movimentação do eixo.
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Instalação da “tampa”, na realidade uma arruela, que irá proteger o rolamento da engrenagem que ao eixo será acoplado.
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Montagem de duas engrenagens, uma contendo as travas de aço inox que irá impedir a  catraca de girar ao contrário.
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Conjunto montado.
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Instalação do conjunto no eixo da catraca.
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Parafuso de trava do conjunto.
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Usei uma chave com boca de 11 mm.
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Na sequencia a seguir, colocação dos rolamentos de agulha e das engrenagens que servirão para instalar as engrenagens para as diferentes velocidades da catraca.

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Esta é a peça que, parafusada ao corpo do eixo da catraca, trava todo o conjunto. Só será instalada depois de colocar o tambor.

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Repare que a cabeça dos parafusos ficam sobressalentes permitindo que as molas possam se comprimir e realizar sua função de dar pressão à esta "tampa" do tambor que com suas ranhuras irão dar aperto ao cabo da escota e, ao puxar no sentido contrário, se comprimir, abrindo a tampa e soltando o cabo.
Repare que a cabeça dos parafusos ficam sobressalentes, permitindo que as molas possam comprimir/esticar e realizar sua função de dar pressão à esta “tampa” do tambor que, com suas ranhuras, irão travar o cabo da escota e, ao caçar a escota no sentido contrário, comprimir, abrindo a tampa e soltando o cabo.

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Gire no sentido horário para travar todo o conjunto novamente. Terá de fazer isso somente depois de parafusar o corpo da catraca à sua base já instalada no deck do veleiro.

 

Algumas dicas durante a instalação:

A primeira dica é: as peças das catracas, apesar de parecerem iguais e intercambiáveis, NÃO o são… pode ser que no dia em que foram montadas da primeira vez, qualquer uma servisse, contudo, após tantos anos de uso, o material se adapta e se molda e, por isso, cada peça passa a pertencer, encaixar e funcionar, somente na sua catraca de origem. Não adianta tentar colocar uma peça na outra… na hora de fazer o sistema funcionar, é bem provável, que algo vai dar errado. No meu caso, usei a rosca que trava todo o conjunto na catraca errada e esta ficou travada… não girava de jeito nenhum… então, coloquei outra rosca e a catraca passou a rodar “livre, leve e solta”.

A segunda dica é: Aperte bem os parafusos, principalmente os do self-tailing, que sofrem um maior esforço, ou, como mostra a foto, além de destruir os parafusos, você vai aumentar o furo da rosca no corpo da catraca de alumínio e terá de fazer novos.

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A terceira dica é: Não se esqueça de colocar um pouco de graxa também na engrenagem na base interna do corpo da catraca.

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A quarta dica é: Catracas antigas, como muitas coisas antigas, são basicamente “artesanais” e, sujeitas a variações durante a produção. No caso de uma das catracas Aldo 32, demorei um bom tempo tentando ajustar a catraca, inclusive trocando peças entre elas, contudo, ao finalizar a montagem, independente da peça que usava, o tambor não girava… após várias tentativas e erros, parei para analisar o que estava acontecendo… a causa do problema era o braço do self-tailing, que entra na “ranhura” que trava o cabo que, após o aperto, encostava no corpo da catraca impedindo o mesmo de girar… Foi aí que entendi para que servia uma arruela de plástico com 4 furos (somente tinha uma destas arruelas e pensei que as outras tinham se perdido). Esta arruela, servia de separador para subir um pouco o braço do self-tailing… somente esta catraca precisava desta arruela e servia para solucionar algum problema de usinagem do eixo que, sem ela, o braço não dava altura e encostava na tampa do self-tailing… por este motivo, ao limpar, mantenha sempre todas as peças da mesma catraca juntas (não misture), para não trocar as peças por engano.

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Esta arruela de plástico, serve para aumentar a altura do braço do self-tailing nesta catraca específica. Deve haver ocorrido algum problema na usinagem ou montagem desta catraca na fábrica pois é a única que precisa desta arruela para funcionar perfeitamente… produtos antigos são, muitas vezes, artesanais e precisam de ajustes.

A quinta dica é: SEMPRE, coloque alguma proteção ou barreira para evitar que peças caiam na água durante a montagem ou desmontagem. Na foto acima, você pode perceber que uso a “portinhola” como barreira entre a catraca e a borda. Qualquer coisa que tenha certa altura pode ser usada.

A sexta dica é: Nas catracas Aldo, tanto na 28 quanto na 32, você tem vários furos na parte superior do braço do self-tailing (veja foto acima). Como somente são usados 4 parafusos para prender o braço do self-tailing à rosca que trava todo o sistema, nos perguntamos: Para que servem os outros furos? Servem para fazer o ajuste da posição do braço do self-tailing em relação à catraca e a sua posição no veleiro. No caso de catracas no cockpit, o braço do self-tailing das diferentes catracas deverão estar posicionados conforme o esquema abaixo e, por este motivo, depois de travar a rosca, você solta os parafusos e gira o braço até a posição que deseja, colocando e apertando então, os parafusos novamente.

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Ajuste do braço do self-tailing após aperto da rosca (que para apertar tem de ser parafusada no braço). Uma vez posicionada, coloque a “tampa” sobre o braço, encaixe os parafusos, e aperte.
Esquema com as posições recomendadas do braço do self-tailing das diferentes catracas.
Esquema com as posições recomendadas do braço do self-tailing das diferentes catracas.

A sétima dica é: Caso precise mandar fazer uma peça para substituir uma danificada, tendo como modelo outra peça (são “intercambiáveis” lembra?), procure um bom torneiro-mecânico que trabalhe com aço inox náutico (316). Mandei fazer um dos braços da catraca Aldo 28 que havia quebrado quando a retranca caiu sobre ele durante o desmonte do mastro quando troquei o estaiamento e, também, mandei fazer 8 parafusos novos de aço inox para substituir todos os parafusos que prendem a cabeça das 2 catraca Aldo 32.

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Novo e “reluzente” braço do self-tailing da catraca Aldo 28, construído em aço inox por um experiente torneiro-mecânico em substituição do antigo quebrado.
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Braço do self-tailing da catava Aldo 28 que serviu de modelo (a esquerda), a nova (centro) e a quebrada (direita)… sempre use um bom torneiro-mecânico para o serviço.

E, por fim…tudo funcionando perfeitamente, voltamos a velejar…

Catraca montada novamente no veleiro com sua manicaca também original.
Catraca montada novamente no veleiro com sua manicaca também original.

 

Espero que tenha gostado e, principalmente, de alguma maneira, o tenha ajudado.

Lembre-se de que esta catraca foi projetada e construída nos anos 80 e que cada catraca tem sua peculiaridade, sistema, fabricante e modelo/uso. Por estes motivos, nem sempre, o procedimento que demonstrei acima servirá para montar e desmontar a sua em particular. Contudo, este pode ser usado como referência.

De qualquer maneira, sempre consulte o fabricante da sua catraca e verifique se o mesmo não disponibiliza(ou) um manual de operação, montagem e limpeza… No caso da Aldo 32, o fabricante, além de ser da época pré-internet e não ter disponibilizado os manuais para download, há tempos não fabrica mais catracas para veleiros.

Bons ventos!

 

Max Gorissen

Editor SailBrasil.com.br e SailBrasilMagazine


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