Exibicionismo virtual do velejador? … Nem sempre…

Foto: Max Gorissen
Foto: Max Gorissen

Os velejadores, pelas próprias características de seu hobby e de seu estilo de vida, tendem a passar uma imagem que, muitas vezes, beira o exibicionismo.

Sempre rodeados pela natureza, em paisagens de tirar o fôlego, em locais exclusivos, em velejadas incríveis e em veleiros que, por si só, são o sonho de muitas pessoas, ao divulgar esses momentos pode parecer que estão se exibindo – o que nem sempre é verdade, já que a grande maioria está apenas curtindo o estilo de vida que escolheu para seu lazer.

Isso não era um problema até o advento das redes sociais… Antes, nossas fotos eram apreciadas por um grupo restrito de amigos e familiares, e nossas aventuras eram relatadas apenas em conversas.

Então surgiram as redes sociais, e nossas fotos foram parar nas páginas do Facebook, Instagram, Twitter, em grupos do WhatsApp, entre outros.

 

Foto: Max Gorissen
Foto: Max Gorissen

O que era compartilhado com um grupo seleto de pessoas, por meio do like e do share, propagou-se para todos nossos “amigos” e para pessoas que sequer conhecemos. Em seguida, além das fotos, vieram os vídeos maravilhosos das velejadas… e os like e share aumentaram… junto com nossos “amigos e seguidores”.

Hoje, divulgar nossas aventuras nas redes sociais é um ato normal, automático. Postamos, pois postar passou a fazer parte da vida cotidiana.

De maneira inconsciente, nos sentimos obrigados a informar ininterruptamente nossos seguidores do que fazemos em praticamente todos os momentos da vida.

Nada de errado nisso, pois apenas passamos a compartilhar, a cada instante, a aventura que é a nossa vida. Bem, na verdade, parte da nossa vida, já que a grande maioria posta somente os momentos de felicidade e nunca os problemas ou as coisas ruins que acontecem. Mesmo assim, se esse é o padrão convencionado e aceito nas redes sociais, novamente, não há nada de errado nisso.

Mas começa a surgir uma preocupação, apoiada por uma série de pesquisas as quais indicam que tudo isso pode estar relacionado a problemas de autoestima e relacionamento. O que se diz é que esse exibicionismo está relacionado à necessidade inconsciente de mostrar aos outros o quão perfeita é a nossa vida, e não pela ótica do “ser”, mas do “parecer”.

Será que esse é um problema que se estende ao velejador?

Repetindo o que se afirma no início deste texto, o velejador vive, pelo menos em seu tempo livre, rodeado pela natureza, em paisagens de tirar o fôlego, em locais exclusivos, em velejadas incríveis e em veleiros que, por si só, são o sonho de muitas pessoas. Portanto, claramente, sua prática está relacionada ao “ser” e não ao “parecer”. Salvo raros casos, não é exibicionismo, muito menos problema de autoestima: é fato. Está acontecendo. É real.

Ou seja, se você está velejando pelo Caribe e posta uma foto ou um vídeo onde aparece na roda do leme singrando em um belo veleiro por águas cristalinas e sob um céu azul, isso nada mais é do que a sua realidade naquele momento. Você está apenas compartilhando, com seus amigos, o como e o quanto curte seu estilo de vida.

Então, quem são as pessoas identificadas nas pesquisas?

O que as pesquisas apontam são casos em que, com o uso das redes sociais, as pessoas manipulam a percepção dos outros a seu respeito forjando uma imagem que corresponde exatamente ao que ela quer que os outros vejam. Ou seja, a pessoa mascara sua realidade e “cria” uma nova no lugar.

Você já deve ter visto postagens, nas redes sociais, em que algo parece estar errado. Às vezes, é fácil reconhecer um post de “realidade criada”, pois as fotos ou vídeos estão fora do contexto real da pessoa (se você a conhece), passaram por alterações feitas com programas como Photoshop ou pela adição de efeitos especiais, ou são visíveis os exageros nas poses, nos atos e no linguajar, entre outros. Essas postagens são uma mostra clara do falso universo que as redes sociais permitem e, o que é pior, promovem.

Para quem apenas produz uma realidade “virtual” e não a vive de maneira “real”, fazendo de maneira abusiva postagens mentirosas e exibicionistas, existe a consequência da absoluta impossibilidade de transpor essas relações do mundo digital para a vida real.

 

Foto: Max Gorissen
Foto: Max Gorissen

No íntimo, as pessoas sabem que, cara a cara, é preciso revelar o que realmente se é, e isso destrói a imagem construída nas redes sociais, espaço no qual tendem a manifestar somente o melhor de si mesmas, mostrando o quanto estão se divertindo e os lugares maravilhosos que visitam – sempre em busca da aprovação dos demais.

Por outro lado, essas mesmas pessoas observam e acompanham postagem de outras que realmente estão se divertindo ou de bem com a vida. Essa compulsão voyeurística (em francês, “voyeur” significa “aquele que olha”)  condiciona o estado de ânimo dessas pessoas, de uma maneira nem sempre positiva: estudos revelam que uma em cada três pessoas sentem-se pior e mais insatisfeitas com sua vida depois de visitar as redes sociais.

O interessante é que, apesar de muitas pessoas tenderem a “fabricar” seus perfis nas redes sociais, convencionou-se, por alguma razão, dar-se crédito absoluto e acreditar piamente no que divulgam. O like nos posts, mesmo que irreais, comprovam essa convenção.

Tudo isso gera ressentimentos, confusão, inveja, frustração, solidão e tristeza. A vida virtual e a vida real são expressões diferentes de uma mesma pessoa, e essa diferença, nesses casos, parece aumentar cada dia mais.

E o pior: quando essas pessoas não leem jornais ou livros, não assistem às notícias na televisão, sua visão do mundo resulta, basicamente, do que observam nas redes sociais. Isso as distancia ainda mais da realidade que as circunda, muda seus padrões de sensibilidade social e sua hierarquia de valores.

Qual é a solução?

Não sou psicólogo para opinar nem dar um parecer, mas, como tudo na vida, a moderação no uso pode ser a chave para que qualquer avanço tecnológico esteja a nosso serviço, e não o inverso.

Assim, pratique não postar uma foto, vídeo ou comentário a cada dez minutos. Antes de postar, avalie por que seu grupo de amigos irá se beneficiar da sua postagem. Restrinja-se a postar apenas o que interessa ao seu grupo de amigos, de maneira que curtam sua vida, e não a invejem.

Essas regras se aplicam aos velejadores?

Velejadores em viagem ou em velejadas estão isentos destas regras… Pelo contrário, postem, postem muito!

Mostre os lugares maravilhosos a que se pode ir com um veleiro, a vida de aventura, as pessoas que encontra, a vida saudável e o relacionamento com a natureza que a vela nos brinda.

Porém, tenha cuidado, não acesse seu celular enquanto dirige ou caminha pela rua. Não olhe seu celular enquanto conversa pessoalmente com outra pessoa e, principalmente, não use seu telefone à mesa quando estiver comendo com amigos ou com a família.

Além disso, restrinja suas amizades virtuais às que têm algo a ver com você.

Reavalie sua vida virtual e trate de ter uma vida real. Veleje, veleje muito… Vale a pena!

Bons ventos!

Max Gorissen

Editor da SailBrasil e Velejador


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